domingo, 30 de novembro de 2008

Nevão histórico em Travancas

.
Boneco de neve no Largo de São Bartolomeu, sala de visitas da aldeia.
Travancas é terra de neve, faz parte da Terra Fria transmontana. Porém, com as alterações climáticas os nevões deixaram de ser tão intensos e frequentes. Por isso, para todos os que de nós sentem saudades dela, é uma alegria vê-la chegar cedo e em força neste Outono.


Sábado, dia 29 de Novembro, levantei-me cedo para apreciar a paisagem nevada, iniciada na tarde do dia anterior.

O cabanal e o quinteiro estavam cobertos por um manto de neve fofa e o termómetro, na varanda, indicava dois graus negativos.







A neve, branca e leve, branca e fria, pôs tudo da cor do linho”










Subi à Roçada, no primero passeio pela aldeia.







Alfaias agrícolas na eira do Tó Ribeiro
Cruzamento da estrada para Arzádegos (Galiza)

Casa na Rua de Espanha
Até à estrada que vai de Travancas para Argemil não encontrei ninguém na rua. Por onde andei, era o primeiro a pisar o manto de brancura que, de manhã, cobria Travancas e todo o planalto ao redor!
Só nas proximidades do Café Central ...

... é que vi um ou outro morador que ia ou vinha do café.
A neve, ora continuava a cair...










... ora abrandava.

O condutor deste carro bem manobrou e acelerou para subir a rua que contorna o largo de São Bartolomeu. Em vão, nem empurrado! Para mim foi um momento divertido, entretido a filmar a cena.

Espero colocar o vídeo no You Tube, partilhando desse modo um momento imperdível a que tive a sorte de assistir com a máquina fotográfica em punho.






Satisfeito, pelo primeiro contacto com o nevão, regressei a casa, para o calor da lareira.






Durante o dia fui várias vezes à rua com a finalidade de fotografar Travancas cobertas de neve.
Afinal, embora não fosse a primeira vez que via nevões em Travancas, era uma sorte nevar com tanta intensidade quando me encontrava na aldeia.
Fui para o bairro da igreja.
Ainda subi à torre sineira mas tive medo de escorregar.







Portão de ferro e neve.




Do adro tem-se uma bonita vista das casas situadas do outro lado da ribeira do Cabanco.
A ribeira, onde as mulheres mais velhas lavavam a roupa, foi canalizada.

No papel de repórter fotográfico cruzei-me com alguns moradores. Um deles, num breve diálogo, comentou, com imaginação, que parecia o Pai Natal! lol

Senhor Delmar a caminho do Café Central



A rua, junto ao lar da terceira idade, animou-se com a passagem de homens e crianças ...

... saídos à rua para ir buscar lenha.






Uma família, unida pelo trabalho e na alegria.






A mimoseira não aguentou tanta neve!
Que lindo, uma mulher tipicamente transmontana! Esta senhora, com o xaile sobre os ombros, parece saída da capa do livro que tenho em casa, Terra Fria, de Ferreira de Castro e cuja acção se passa no Barroso há mais de meio século.

A Terra Fria é cada vez menos fria mas Travancas, sob a neve, faz avivar a memória desses tempos idos.







São Bartolomeu, padroeiro de Travancas, abrigado da intempérie.


O largo do coreto é local de festejos: Baile, no São Bartolomeu; e bonecos de neve, no nevão, feitos por crianças grandes e pequenas.





O divertimento é patente.


Uma das razões que me levou a Travancas foi a recolha das abóboras. O Tó Ribeiro ensinara-me a plantá-las. A colheita não foi grande mas o suficiente para ainda dar a amigos.

Durante a estadia experimentei fazer doce de abóbora. A primeira tentativa, durante três dias, em panela de ferro, foi decepcionante. O doce ficou em caramelo, duro como pedra!

A segunda tentativa, feita na noite anterior à partida da aldeia, já resultou mas ainda ficaram a faltar o cravo-da-índia e pedacinhos de amêndoa, como faziam a avó Luísa e a mãe.













O nevão permitiu transformar as ruas da Roçada e 1º de Maio em pistas de tabogan.






A espessura da neve permitia inclusive a utilização de esquis, se os houvesse à mão! Uma questão a pensar!






Para o menino o nevão vai ser inesquecível. Brincou, brincou ….
… mas faltavam-lhe amigos para o acompanharem na brincadeira!



Novos e velhos apreciadores de neve. O senhor Acúrcio, apesar da idade e da dificuldade em andar, não prescindiu do seu habitual passeio ao café, único lugar público da aldeia onde se pode estar com amigos e vizinhos, com algum conforto, fora de casa.








Travancas, na terra fria,
Vestiu-se toda de branco;
A neve leve caía,
Cobrindo-a com seu manto.





Tão bonito foi de ver
Tudo raso de alvura!
Lençol imenso de linho,
Estendido lá na altura!




Como é bonita a aldeia
Debaixo deste nevão
Há muito que não se via
Assim, tão grossa, no chão!

Quadras feitas por Mariana

sábado, 29 de novembro de 2008

Neva em Travancas

Il neige sur le village ...
It snows on my village ...
Nieva en mi pueblo ...

Depois de muitos dias de Sol e de geadas nas últimas noites, com temperaturas abaixo de zero ...






... Travancas começou a cobrir-se de neve na tarde de Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008.

Para quem, como eu, veio a Travancas para recolher na loja as abóboras, reparar o telhado, plantar castanheiros e, de caminho, levar umas castanhas da terra, o tempo ensolarado e sem chuva, havia corrido de feição.



O trabalho de plantação, exceptuando os bolbos de tulipas, estava a ser concluído na Sexta de manhã quando começaram a cair os primeiros farrapos de neve, misturados com chuva.












Ruas, campos e telhados de Travancas vestiram-se de branco pela primeira vez neste Outono.

















Com intervalos de pausa e alguma chuva, a neve continuou a cair, silenciosa, pela noite dentro.


Ao nascer do dia, Sábado, rejubilei de alegria. Da varanda, vi que a neve já tinha coberto a aldeia de um espesso manto de brancura como há muito não sucedia. A aldeia ficou isolada do exterior até os tractores começarem a romper caminhos.

sábado, 1 de novembro de 2008

Os Velhos Homens de Travancas

Los antiguos hombres de la aldea



Ano, atrás de ano, viram as estações sucederem-se mais ou menos rigorosas, marcadas por sementeiras e colheitas, por festas e funerais.






Hoje ainda lembram Invernos de neve grossa que deixava as crias nas lojas e os cristãos bem acomodados, ao redor das brasas, com boa pinga e um salpicão no borralho…




Nesses dias, só os mais afoitos se aventuravam pelos campos, rasos de brancura, para caçar algum caçapo descuidado ou passar algum taleigo para Arçádegos, Flor de Rei, Terroso ...




A vida era dura e áspera a terra. Não poucas vezes a batata e o centeio mal davam para cobrir as dívidas de todo o ano. O pão era escasso e muitas as bocas. Por isso partiram, para terras de França. A salto, a maioria.



Económicos e trabalhadores, voltavam no Verão, aparentando outras posses. Tijolo a tijolo, ergueram as casas sonhadas. Animaram feiras e arraiais, cumpriram promessas com sincera devoção.
 


Regressaram de vez, com o coração dividido, porque os filhos ficaram longe. Então, tornavam-se grandes as casas novas … Com o passar do tempo, a ausência e a morte foram-lhes cerrando as portas e as janelas ... Mas outras se abriram, levando conforto e carinho a quem foi ficando só.







Envelheceram. As pernas um tanto perras não lhes obedecem como dantes.


Por isso ficam sentados na tarde soalhenta, numa sueca animada. E há um, de lado, quebrando as regras, que faz suspender o jogo a destempo: “Vós lembrais-vos duma ocasião em que os guardas prenderam uns treleiros com uns sacos de café, na Ribeira?”




Lúcidos, desfiam memórias e cortam vasas com gestos convictos.














Fotos : Euroluso
Texto: Mariana




quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Merendeiras


As merendeiras são flores cor-de-rosa, rasteiras, perfumadas.
O nome desta flor do campo é um regionalismo que não aparece no Houaiss, o dicionário mais completo da Língua Portuguesa.
Embora já as tenha visto na aldeia, fui encontrá-las em grande quantidade num passeio à Cota de Mairos e ao Santiago, numa destas bonitas tardes ensolaradas de início de Outono.












A floração das merendeiras tem início em Maio, quando os dias são maiores e noutros tempos principiavam as merendas para quem trabalhava no campo.






Alegria na convalescença
-Tanta merendeira! Há quanto tempo não as via!










Flores …












“Quem em Maio não merenda, aos Finados se encomenda”, diz o povo.





A merendeira é uma espécie de açafrão-bravo cujo nome científico é Crocus serotinus.







Em Setembro, no final de Setembro, com os dias mais curtos e o fim das colheitas, acabam as merendas e as merendeiras.
Mesa merendeira na Cota de Mairos






Ai flores, ai flores de verde ramo, Se saberes novas de meu amado? Ai, Deus, e u é? Dom Dinis, Rei Trovador