Seis décadas depois De Miguel Torga ter escrito a obra "Portugal" a tradição da matança, sobre a qual paira o cutelo da ASAE, permanece viva em Trás-os-Montes. O ritual é o mesmo em todas as aldeias. Na Capital da Batata só não se mata o reco nas casas de quem não tem forças para fazer o fumeiro. Mesmo com o envelhecimento e a diminuição da população, calcula-se que por esta altura se matem umas quarenta cevas, metade do que era habitual.
Miguel Torga
Quando cheguei para assistir à matança já o primeiro porco estava a cuincar, ferido no coração pela faca certeira do matador.
Os dois bácoros, depois de mortos, foram levados de tractor para - junto da casa do Tó - serem chamuscados, lavados e abertos a fim de se lhes tirarem as entranhas.
Comprados na Galiza em Setembro, já capados, pesam, cada um, à volta de 130 kg. Durante a engorda foram alimentados com couves, batatas e abóboras. Bem feitas as contas fica cara a alimentação das cevas. O que vale é as pessoas terem hortas!
Chamuscando com maçaricoPara chamuscar o porco - queima dos pelos e da fina camada de pele sobre o couro - usa-se uma botija de gás e um maçarico em vez da tradicional palha de centeio. Como nas ceifas se enfarda logo a palha esta já nem existe e o uso do maçarico torna a tarefa de chamuscar mais fácil e rápida.
Desde criança que não via uma matança do reco. Causou-me, por isso, alguma estranheza, ver a pele do animal ser raspada com enxada.
Mas a raspagem com a enxada tem vantagens. Como o fogo é intenso, o cabo comprido salvaguarda de eventuais queimaduras quem tem que raspar a pele antes que o couro arrefeça.


"Impressionou-me sempre na vida aldeã este cerimonial doméstico, que acaba por deixar um morto de pernas para o ar, pendurado na trave da casa. Na manjedoira vai nascer o Salvador; à lareira vai-se juntar a família; e à entrada da porta simbólica renovação do Ano Novo, o espantalho do cadáver que há-de alimentar o futuro!”
Miguel Torga
O goberno da casa
A carne de porco é o alimento de todo o ano.
As carnes de órgãos vitais são consumidas de imediato. O fígado pode ser assado no espeto e temperado com azeite; pode ser estofado no tacho e frito, em iscas. O coração come-se cozido ou frito. Do bofe fazem-se as bocheiras.
Enxugar O desmanche do porco, para dar tempo do sangue escorrer, a carne arrefecer e enrijar com o frio, ficou para hoje, um dia depois da matança. No desmanche separam-se as carnes para o fumeiro, daqui a uma semana. Os presuntos e as orelhas vão para a salgadeira durante vinte dias, embora haja quem os ponha na arca frigorífica.





Depois, no Alto da Penha,
Já na deslumbrante igreja,
No Alvão, uma paragem