terça-feira, 20 de julho de 2010

Os de Travancas no São Gonçalo

Uma aventura de três festeiros


Era uma vez três senhores de Travancas que no dia 18 de julho quiseram ir à festa do São Gonçalo de Orjais, aldeia situada na vizinha freguesia de São Vicente da Raia. O santo, na realidade um beato dominicano que nunca chegou a ser canonizado, nasceu em 1187, em Vizela, e faleceu no dia 10 de janeiro de 1259, em Amarante, cidade em cujo mosteiro repousam os seus restos mortais. A festa, realizada, inicialmente, como a de todos os santos, no dia do falecimento, foi transferida de janeiro para julho, para que os emigrantes nela pudessem participar.


Os três festeiros - o Delmar, o Matias e eu próprio -  partiram do Café Central, pelas 15 horas, a fim de passar uma tarde bem passada no São Gonçalo, festa onde nenhum tinha estado antes. Desceram de Orjais até ao rio, pensando que iam ao encontro da festa, no fundo da ravina. O  caminho de terra batida, íngreme e inóspito, não lhes retirava o entusiasmo de saborear uma loura, no idílico vale da capela de São Gonçalo.



Mas foram dar a um ribeiro onde não havia vestígios de festa. Estavam perdidos! Na outra margem, sem viva alma, viram  uma casa em construção e um moínho a ser recuperado.  Souberam  mais tarde  que eram de um inspetor da polícia judiciária do Porto, que para ali vinha à caça e à pesca. O lugar chama-se Castelo de Pulo, bom para ser explorado por amantes da natureza.



Regressaram ao carro, atravessando o ribeiro com redobrado cuidado, para não escorregar nas pedras, polidas por milhares de enxurradas.


Matias e Delmar, com algum contorcionismo, conseguiram equilibrar-se e regressar enxutos.


De volta a Orjais, numa curva sinuosa e inclinada da encosta xistosa, a uns 500 metros da ribeira, o carro começou a derrapar no manto de pó e dali só saiu rebocado por um trator.  Dias antes, a outro carro perdido, aconteceu o mesmo! Evitar-se-iam alguns transtornos aos forasteiros que demandam o São Gonçalo, se a Junta de Freguesia de São Vicente da Raia colocasse, no cruzamento junto ao cemitério, uma tabuleta a indicar o caminho para a capela do santo!



Euroluso, habituado a não ter amor aos carros que lhe passam pelas mãos, de vez em quando mete-se por caminhos que não lembram ao diabo! Uma vez, no Douro vinhateiro, pertencente ao concelho de Carrazêda de Ansiães, mandou o filho descer do carro para tirar da rodeira os calhaus de xisto que iam surgindo à frente. Esta última aventura foi mais uma mas... para pior! Falta agora saber, se foi o calor do esforço do carro, que está na origem da inutilização da embreagem, no dia seguinte!



Sem cobertura de rede para pedir ajuda por telemóvel, coube aos companheiros de aventura vencerem, sob sol ardente, 400 metros de inclinação da encosta e percorrer uma distância superior a 3 km, para chegarem a Orjais e aí pedirem auxílio. A aldeia estava deserta! Os poucos moradores tinham ido para a festa! Levado por um carro que regressava de lá, o Matias foi até São Vicente da Raia, onde encontrou o dono do trator que veio rebocar o carro. Foram duas longas horas de espera! O que valeu foi ter uma garrafa de água, com que ia molhando a garganta, ressequida pelo calor. Chegados a Orjais, sãos e salvos, três horas depois de terem partido de Travancas, os três decidiram não prescindir de ir à festa! E toca a descer, por  outro caminho, até ao São Gonçalo!


Percorrendo alguns quilómetros, a descer a íngreme encosta, chega-se ao fundo de um vale frondoso e pujante de frescura, no qual sobressai uma modesta capela, caiada de branco.



Entrou-se, em vão, à procura da imagem do santo. No retábulo há uma pintura em madeira, em mau estado de conservação, e na base do altar-mor encontra-se uma inscrição de que apenas se decifra que "Esta ... a mandou fazer Antonio Glz (Gonçalves) de Sá ... Anno de 1803 ..."
Mas porquê existir uma capela num lugar ermo e tão distante? Conta-se que foi um barqueiro deste lugar, no Rio Mente - seria o tal António Gonçalves? - que a mandou construir, em cumprimento de promessa feita ao eremita São Gonçalves, por este o ter salvo das tentações do diabo. Reza a lenda que um dia, o barqueiro viu uma linda donzela mas quando se preparava para a possuir, olhou-lhe para as pernas e viu que tinha pés de cabra. Temeroso de que o diabo quisesse apoderar-se da sua alma, pediu a proteção do santo, que lhe concedeu a graça de o livrar das tentações da carne.


No lugar há varias casas pertencentes ao termo da freguesia de São Vicente e duas, do outro lado do Rio Mousse, afluente do Rio Mente,  pertencentes à Castanheira. Surpreendente, para quem desconhecia a grandiosidade da festa, a grande quantidade de carros, tratores e carrinhas  que desceram à ribeira, para a festa do santo.


Zaragata motivada pelo facto de um condutor não ter retirado o carro do caminho, para outros dois se irem embora. Não havia policia por perto. Depois de alguns empurrões, roupa rasgada e ameaça de navalhadas e bastonadas, tudo se resolveu sem ter havido murros e feridos.



Família de merendeiros no Rio Mousse. Eram várias as  mesas, montadas nas carrinhas e atrelados ao longo do rio, sem grande caudal, nesta época de estio.


No Rio Mente, mais caudaloso, tomava-se banho e gente das Terras de Lomba, Concelho de Vinhais, convivia elegremente. Dizem-me que, antigamente, até de Chaves vinham para aqui famílias inteiras e amigos fazer pique-nique.


Amigos a jogar aos matraquilhos.  Quem organizou a festa?  Mordomos de Parada da Castanheira, aldeia mais próxima, ou de Orjais?



No recinto, os três companheiros de aventura encontraram outros festeiros de Travancas, daqueles que gostam de percorrer todas as capelinhas.


Encontrar lá o senhor Modesto, de quem desconhecia a paixão por motos, foi uma agradável surpresa. Aparentemente bem integrado no meio, na sua companhia não me senti forasteiro na festa!


Mais abaixo, na confluência dos rios Mente e Mousse, foi montado um palco, à frente do qual  se desenrolou o bailarico, participado por muitos dos pares que não queriam perder uma moda.


Como é bonita, a dançar, esta nossa gente raiana!


Ó meu rico São Gonçalo
Casamenteiro das velhas
Porque não casas as novas
Que mal te fizeram elas?

A imagem de São Gonçalo foi retirada da capela e colocada em frente ao local do bailarico, para ser mais vista; assim sempre iam aumentando as ofertas ao santo casamenteiro, que nesse domínio rivaliza com Santo António.



Os senhores José Silvério e Xico Melo  à mesa com amigos. O antigo guarda-fiscal, excelente conhecedor dos caminhos do contrabando da zona, quis levar-me a conhecer a cascata que segundo ele, é muito bonita!. Agradeci mas ficou apalavrado que, oportunamente, voltaria ao São Gonçalo com ele, para conhecer o rico património paisagístico e cultural desta zona fronteiriça.



O senhor Modesto é uma caixinha de surpresas! Conseguiu que o tocador de acordeão, de que apenas fixei o primeiro nome, Fernando, fosse até uma casa junto à ribeira, tocar o instrumento, em exclusivo, para o blogue Travancas da Raia!


Apesar do tempo ter sido escasso a apreciar a exibição musical do Fernando Faiões, gostei dos excertos tocados e tive pena de não ter ficado para ouvi-lo tocar,  à noite, no palco.


Que os portugueses são cevadinhos, já se sabia! Que são amigos do tinto, também! Mas agora está-se a descobrir que também se alargam com as louras e vai daí,  quando não chegam para matar a sede a todos, toca a ir prós finos!


Mais dois de Travancas, amigos de festas, a quem foi impossível dizer não e botar mais uma!




Rica festa, no expressivo sorriso do Manuel e do Matias!

Preparem-se homens de Travancas, que as esposas já andam a confabular que para o ano querem ir juntas, mas sem os maridos, ao São Gonçalo de Orjais! E esta, hein?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Casa do Sargento Deitada Abaixo

E tudo o buldozer arrasou...


Eram sete rapazes...
...os filhos do sargento Edmundo, guarda-fiscal, casado com dona Marquinhas Maldonado. A pensar neles, construiu a casa, com pedra acarretada do Vale Grande, em carros puxados por juntas de bois.



Esteve muitos anos deslocado em Vilar de Perdizes, a mulher é que tratava dos filhos. O Honorato, guarda-fiscal como o pai, foi para o Porto. Outros emigraram para o Brasil e não voltaram. O único que ficou por Travancas, o Mundinho, apareceu morto num rego da água há uns anos.



A casa, na realidade eram duas, em propianho, situada ao lado da igreja, era das mais sólidas e bonitas casas de granito da aldeia. Habituado a ver a sua bela silhueta na colina, onde se destacava a grande e envidraçada varanda de ferro forjado, vou estranhar a perda deste valioso património edificado.



Desabitada desde a morte do Mundinho, sem reparação do telhado, degradou-se de tal modo que a sua morte há muito parecia anunciada. Posta à venda por vinte mil euros, pelo Sílvio, filho do Honorato, ninguém a comprou, acabando por ser vendida à Junta de Freguesia pelo preço simbólico de cinco mil euros, com o compromisso de no terreno se fazer um parque de estacionamento.



Os sinos não tocaram a rebate
Há edifícios particulares que pelo seus valores estético, histórico e monumentalidade, acabam por fazer parte do património da comunidade e serem por ela protegidos. Era o caso da casa do sargento Edmundo, onde havia espaço para se fazer um museu etnográfico da freguesia.



Escada dentro do pátio
Já depois de demolida parte da casa, alguns habitantes ainda se movimentaram no sentido de deixar de pé a sala da varanda e adaptar o amplo baixo a casa mortuária, ficando a que existe, para alargamento das instalações do Lar do Senhor dos Aflitos.




Banheira, um luxo!
Numa época em que as casas não tinham luz, casa de banho e água canalizada, na casa do sargento Edmundo tomava-se banho de imersão!



Janelas com vistas largas para o bairro d´Além do Rigueiro, colina  de Roriz e castelo de Monforte.



O princípio do fim
Às 16h do dia 23 de abril de 2010, começou a demolição da emblemática galeria envidraçada. As obras, no entanto, começaram dia dezanove, embora eu só me tenha apercebido delas no dia seguinte, quando já tinham sido derrubadas as paredes do topo oeste e do portão do pátio de acesso às escadas.



Chão da varanda em propianho
Contam-se pelos dedos da mão as casas que em Travancas têm estas típicas varandas de granito. Hoje não se fazem mais varandas destas.  Fica dispendioso e o granito é cortado  com maquinaria. Quem as tem, conserva-as e valoriza o património.


Último adeus
Saída da missa, dia 25 de abril.



Travancas perde propianho
O granito trabalhado, da casa do sargento Edmudo, foi parar algures, julgo que a Nantes, próspera aldeia do concelho de Chaves, a troco de algum dinheiro e da limpeza do terreno.



A história do granito ido para fora da aldeia faz-me lembrar outra semelhante de que tive conhecimento pela comunicação social há anos atrás. Na altura foi noticiado que os espanhóis andavam a comprar, na zona raiana, a pedra de xisto dos muros das propriedades.


A conclusão é a mesma: se não damos valor ao que possuímos, outros sabem dele tirar proveito.




Largo da Casa do Sargento Edmundo


Não conheço o Sílvio, neto do sargento Edmundo, mas louvo a sua atitude, de ceder a Travancas, por um preço simbólico, o casarão do seu avô paterno. Gostava de encontrá-lo!


Não sei se a Junta vai dar um nome ao largo do futuro parque de estacionamento mas acharia bem se se prestasse homenagem ao sargento da guarda-fiscal.


Para os que vivem  em Travancas seria uma forma de assumir o passado,  de o preservar e transmiti-lo com dignidade, às gerações vindouras.



Quanto a mim, uma vez que a casa, infelizmente, foi demolida, registo o seu triste fim e a saga, incompleta, da família proprietária, porque escassos são os dados que possuo.


segunda-feira, 24 de maio de 2010

Pentecostes em Argemil

Festa do Divino Espírito Santo

Pentecostes - quinquagésimo, em grego antigo - é a festa cristã que comemora a descida do Divino Espírito Santo sobre os apóstolos, cinquenta dias depois do domingo de Páscoa e dez dias depois da Ascenção. Dois nomes diferentes, consoante o lugar,  para a mesma festa.


Em Travancas, esta celebração  é rotativa, cabendo a cada uma das três aldeias da freguesia, de três em três anos,  a organização da festa. No século XX, Travancas e Argemil, como eram mais populosas que São Cornélio, chegaram a ficar divididas em dois bairros, tocando a organização a cada um, de cinco em cinco anos.



O Divino Espírito Santo, festa, outrora, exclusivamente religiosa, incluia uma procissão. Este ano, calhando a vez de Argemil organizá-la, a 23 de maio, foi introduzida uma componente profana.



O dia ensolarado ajudou a que muito povo das três aldeias se juntasse no largo, por trás da igreja, para bailar, beber uns copos no café, jogar cartas e conversar animadamente.  A um observador fica a ideia de que a festa profana atrai um público mais vasto que o da prática religiosa.





As mulheres, como habitualmente, são as que mais participam no bailarico.



A atuação do conjunto SAMTEX, de Carrazedo de Montenegro, terá sido a forma de Argemil se ressarcir do perdido arraial de São Miguel, padroeiro da aldeia, cancelado devido à intensa chuva, caída no dia da festa.



Chegas

No âmbito da festa do Divino Espírito Santo realizaram-se três chegas num campo próximo do posto de vigia florestal, junto à raia.


Para quem não sabe, a chega é uma luta de touros.  Noutros tempos, em muitas aldeias havia um touro cobridor, por todos alimentado, chamado boi do povo. Em dias de festa, era costume por os bois a lutar. A rivalidade era grande, a aldeia do touro vencedor rejubilava, como se a força e a virilidade do animal se transferissem, no plano simbólico, para os homens do lugar.



O costume da chega, enraizado na Terra Fria do Barroso, propagou-se a outras terras transmontanas, incluindo cidades e vilas, como forma de espetáculo típico da região de Trás-os-Montes. Em Vinhais, até já foi construída uma praça de touros, o chegódromo, e organizam-se campeonatos de chegas!


Sinal de identidade transmontana, é com agrado que registo a realização de chegas na freguesia, sem ser na festa do Senhor dos Aflitos. No entanto, o emaranhado de normas burocráticas é um obstáculo à continuidade deste ancestral e típico costume, feito a medo das autoridades, insensíveis a valores identitários da região transmontana.


Cheguei ao campo a tempo de assistir à última chega. Apesar de ficar afastado da aldeia, estavam lá várias pessoas, deslocadas em carros, carrinhas e atrelados.


A chega acaba quando um dos touros, percebendo que não tem força para vencer o adversário, desiste de lutar e foge. Aquela a que assisti foi rápida, não demorou mais que um ou dois minutos.


O senhor Carlos, natural de Travancas mas a residir em Argemil, é o dono do último touro vencedor, um animal jovem, de dois anos, pesando cerca de 400kg. As chegas realizaram-se com a prata da casa, touros de vacarias de Argemil e São Cornélio.



No regresso à aldeia, parei num alto, junto ao pinhal, para contemplar, maravilhado, a vastidão de montes e terras que se estendiam à minha frente. O olhar abarcava tudo, desde São Vicente e outras terras raianas, até ao Parque de Montesinho e Galiza.

Como gosto de Trás-os-Montes na Primavera!

Entretive-me a fotografar pinhas, fragas e o tapete de flores de carqueja, tojo e de outra flora típica da região, florida nesta altura do ano, tal como a flor branca cujo nome desconheço. Não me admira que o senhor Modesto tenha para estes lados uma colmeia. Ia vê-la, quando o encontrei pelo caminho.


Ruralidade e bucolismo


Depois de uma passagem pelo local do bailarico, onde encontrei o Luís,  o jovem que pintou a máscara de careto que tenho na sala, fui até ao fundo do povo para falar com um emigrante que reconheci na  missa do Divino Espírito Santo, décadas depois de as nossas vidas se terem cruzado a primeira vez.


Pelo caminho passei por uma seara de centeio, encontrei um pastor de cabras, para quem o domingo era dia de trabalho...


...e um gato dorminhoco parecido com a Gigi, gatinha que trouxe de Oeiras para Travancas e morta, por atropelamento, na Bolideira.



No recinto da festa a animação continuou pela tarde fora e à noite houve arraial. Para o ano há mais!