Nas terras "da montanha", como se diz em Chaves, o verde da rama das batatas e o dourado das searas de centeio estendem-se a perder de vista.
Na capital da batata, a produção de centeio ocupa à volta de 80% da área cultivada e a batata os restantes 20%. Há 15 anos atrás, a área de produção das duas culturas ainda se igualava. Hoje, também há uma grande área de poulo ou coberta de giestas.

A cultura cerealífera assenta essencialmente na produção de centeio. Há uma ou outra seara de trigo, mas não passa disso mesmo, de uma cultura residual. O centeio, pelo contrário, dá-se bem em climas frios e solos secos, pobres em nutrientes e ligeiramente ácidos.

As ceifas começam, quando os grãos ficam maduros e as espigas secas. A duração está dependente do clima, durando, em média, duas a três semanas. Quando o tempo está de chuva, não se pode ceifar. Já houve um ano, inclusive, bastante chuvoso, em que a palha ficou negra e por altura da festa do Senhor dos Aflitos, ainda se ceifava. As ceifas deste ano começaram dia 20 de julho e devem terminar por volta do dia 10 de agosto.

Há dias, numa tarde de muito calor, quando me apercebi da movimentação de segadeiras, fui de bicicleta até aos cruzamentos para São Cornélio e Roriz, com o intuito de fotografar as ceifas. A segada manual, essa acabou, há aproximadamente 40 anos. Nesse tempo, os segadores vinham de outras aldeias, formando cinco a seis ranchos, de oito a dez segadores cada um, comandados por um capataz. De Travancas também iam homens para outras terras segar, incluindo para A Gudiña, na Galiza.

Acompanhei a ceifa de uma seara, junto à oficina do Zé Pinto. Ao todo, em Travancas, há seis ceifeiras a trabalhar. Uma vem do concelho de Valpaços, outra da freguesia de Casas de Monforte, duas de São Cornélio e uma de Argemil. Curiosamente, em Travancas não há quem tenha ceifeira, desde que a família Maldonado deixou de ter uma, que debulhava e ensacava. Há três anos o Berto também comprou uma ceifeira, que ainda trabalha em São Cornélio.

Uma ceifeira-debulhadora, dependendo do terreno, ceifa, em hora e meia, mais ou menos, um hectare, tanto como seis ceifeiros, empunhando foices, segavam de sol a sol. A mecanização foi, aliás, entre outros, um fator de emigração.

Num hectare de terra - dez mil metros quadrados - são semeados à volta de quinze alqueires de centeio, ou seja, cento e oitenta quilos, enquanto a produção média por hectare ronda os três mil. É pouco? muito? São fiáveis os dados sobre a produção que uma fonte de informação me indicou? Pretendendo estabelecer comparações, pesquisei na internet e encontrei previsões do INE apontando para uma produtividade média de 990 kg/ha, em 2009, em Portugal continental.

A ceifeira-debulhadora corta o caule do centeio e debulha, separando os grãos da espiga, trabalho este, outrora efetuado nas eiras pelos malhadores. A ceifeira da foto também ensaca.

Mal terminou a ceifa da seara, um trator, puxando um atrelado, foi colocado ao lado da ceifeira, para o grão ser despejado em sacos, segurados por vários homens, enquanto um quinto os atava.

Na aldeia há cerca de vinte produtores. A produção total, apesar de ter vindo a diminuir, é de vinte e cinco vagões, de dez toneladas cada um! Muito centeio! Há 25 anos, antes da EPAC ser extinta, a cooperativa agrícola comprava o centeio a 50 escudos o quilo, agora paga-o, a doze cêntimos na aldeia, e a treze se o agricultor o entregar em Chaves.

Apesar de apenas ter sido observador da ceifa, feita debaixo de calor escaldante que fazia suar por todos os poros, aceitei a oferta de molhar a garganta seca com uma refrescante cerveja.