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sábado, 23 de janeiro de 2016

Dias de nevoeiro

Montanha submersa na névoa

Denso nevoeiro, à mistura com chuva fraca, cobre  desde há dias o Planalto de Travancas.


Sem nevadas nem geadas, o manto do nevoeiro é que faz sentir que se está na invernia


Na cota acima de 700 metros, o reino das névoas diurnas e noturnas!


Árvores despojadas de folhagem e  pardais...


Badaladas ecoam por entre as brumas. 




Nas brumas dos meus silêncios
Nascem visões encantadas,
Com ninfas, bruxas e fadas,
Sonhos de amor, sempre densos.
Vitor Cintra



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Terras da raia sob névoas

Na estação celta da escuridão

Druída celta e o caldeirão mágico
Os primitivos habitantes da Terra Fria transmontana foram os celtas, povo do qual herdámos, além do ADN, costumes pagãos que, embora proscritos pelo cristianismo, sobreviveram em povoações mais isoladas.


Aqui bem perto, em Cidões, concelho de Vinhais,  ainda se festeja  no equinócio de outono, a passagem da estação da claridade (primavera e verão) para o tempo da escuridão (outono e inverno). No calendário celta só há estas duas estações do ano.


A estação da escuridão, aquela em que nos encontramos, vai até ao equinócio da primavera, em março.



 
Este é o tempo em que, quando a noite é mais longa que o dia, a natureza hiberna.


 
É o tempo em que, quando as brumas cobrem as aldeias da montanha...


Emerge do nevoeiro Cailleach,  deusa dos ventos frios e das mudanças; senhora do inverno, mais antiga que o próprio tempo.


Mago a fazer queimada - poção mágica que aquece o corpo - observado por três deusas celtas. Os aldeões dão-lhes o nome de bruxas; meigas, em galego.

Esconjuro
parte final

"Forças do ar, terra, mar e fogo,
a vós faço esta chamada:
se é verdade que tendes mais poder
que a humanas pessoas,
aqui e agora, fazei que os espíritos
dos amigos que estão fora,
participem connosco desta Queimada.

Em São Cornélio, sob a névoa, perdida a noção de abóbada celeste, abarcando o zénite e o nadir, deixo de sentir a veiga de Aquae Flaviae aos pés; deixo de me sentir senhor de todas as montanhas abarcadas pela vista, do meio-dia ao setentrião. 



No denso nevoeiro, nem sequer avisto, ali arriba, o Alto da Escocha, onde a Gallaecia se divide em duas, a do norte e a do sul. 

Adentrando no imaginário de lendas celtas, vejo Nimue, a Senhora do  Lago, mergulhar nas águas da barragem do Vale das Tábuas, morrendo por amor.


No silêncio  das brumas, o ruído do trator e o cheiro a estrume,  despertam-me do encantamento e devolvem-me à realidade.


Regresso a Travancas, outrora designada Capital da Batata, Travancas da Raia  e Travancas de Monforte.

 "Portal" por onde, no Reino Maravilhoso, se entra e sai da magia raiana.




Há milénios, na noite sagrada de 31 de outubro, no shamhain, festa de passagem para a estação da escuridão, os celtas faziam uma fogueira para honrar os mortos e oferecer-lhes comida.  Desse costume, ficou o  magusto, fogueira onde se assam castanhas, mas despojado da ligação simbólica ao culto dos mortos.



As névoas vão continuar até março mas dentro de dias festeja-se o Natal, nascimento da LUZ, coincidente com a festa celta que celebra o Solstício de Inverno. Aqui na raia, este ano, à falta de nevadas e geadas,  por causa das alterações climáticas, valham-nos as brumas que nos envolvem de magia!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Névoas Raiotas

Alegoria às Brumas de Avalon

Travancas não é a brumosa ilha de Avalon, terra encantada que as mulheres governam pelo seu poder de gerar vida.
 

Nem nela andou Lancelot, o mais valoroso cavaleiro da Távola Redonda, por quem se apaixona a bela raínha Guinevere, esposa do Rei Artur.
 


A enevoada terra raiana, situada nos confins do Reino Maravilhoso, conto de Miguel Torga, encanta, todavia, quem sobe à montanha e entra no planalto ecológico pela porta da Pedra Bulideira, guardiã de um segredo, desvendado a portadores de sabedoria.


 
Terra de celtas, povo que deixou  herança genética e práticas culturais, nos costumes pagãos dos primitivos habitantes da freguesia, partilha com Avalon, além das brumas, o património das lendas do Ciclo Bretão.
 

 
Os amores entre Guinevere e Lancelot trazem à memória outros amores de perdição, há meio século atrás, entre um capitão do exército português - casado e anti-salazarista - e uma simpática, extrovertida e liberal filha raiota,  cuja voz doce e reconhecida beleza, tinham o dom de pôr os homens de cabeça à roda e prostá-los de desejo a seus pés.
 
 
 
A relação entre os dois amantes termina com o assassinato do capitão, encontrado por cães, enterrado nas dunas da praia do Guincho. Jose Cardoso Pires inspira-se nessa trama passional para escrever  "A Balada da Praia dos Cães", premiada obra que está na origem de um filme com o mesmo título.
 
 
 
Nas névoas raiotas não há nenhum bardo, espécie de trovador celta, como Kevin, o melhor harpista do reino de Artur,  mas gaiteiros, sempre houve e haverá, como os que tocavam para enamorados nas eiras e no largo, onde estes bailavam.
 
A murinheira trina trina
A murinheira trinará
A murinheira anda prenha
A murinheira parirá
 
 
Voltando a Avalon, a Ilha Sagrada, guardiã de mistérios eternos, houve um tempo em que, segundo a maga Morgana, irmã do Gande Rei Artur, "os  portões entre os mundos (mitológico e o real) flutuavam por entre as brumas e estavam sempre abertos um para o outro, conforme o que o viajante pensasse e quisesse".
 
 

De igual modo, as névoas que cobrem, noite e dia, o Reino Maravilhoso, entre o equinócio de outono e o da primavera, entranham-se em nós, dando-nos a sensação de estarmos  num mundo fantasmagórico, onde vivem trasgos, duendes, gnomos, bruxas e zangões.  Neste Reino, onde se ouve a voz do silêncio, até as pedras falam!
 
 
 
Envolvidos no denso nevoeiro, compreendemos as interrogações de Igraine, esposa do duque da Cornualha - Uma das seis nações celtas, situada no sul do Reino Unido -  e mãe do Grande Rei Artur. Sob a neblina, como é que ela, ou outrém, alguma vez poderia saber quando é que o dia e a noite têm a mesma duração, para poder celebrar a festa do ano novo pagão?
 
 
 
A capital do reino, Camelot,  fica  na Bretanha,  mas na Capital da Batata brotam, igualmente, fontes de água cristalina,  onde o mago Merlim e os Cavaleiros da Távola Redonda poderiam saciar-se sempre que subissem à montanha, para tomar a poção mágica.
 
 
Entre quem é!
Embora o Reino Maravilhoso não seja  rodeado de mar, como Avalon, para o alcançar, o viajante não tem de interrogar o grande oceano magalítico  porque o nume invisível lhe ordena:-Entre! A gente entra, e já está em Travancas, no Reino Maravilhoso!  
 
 

Janeiro em gaélico quer dizer Eanáir, a Lua amarela da cor do feno e do hidromel. Ela representa o tempo em que os antigos pagãos preparavam os campos para o ciclo de celebrações das colheitas.
 
 

"O solstício de inverno lembra-nos que a escuridão, o frio, a noite longa e o dia breve, o fim, afinal são um recomeço e, a partir do ponto de transição, a escuridão pouco a pouco de novo cede o lugar à luz, o frio desaparece, a noite se encurta e o dia se alonga, o fim é afinal um novo princípio".
 
 
 
Brumas de Avalon, lugar imaginário, de tal modo envolvido pelas névoas, que nenhum ser humano nunca o pôde alcançar e contaminar com a sua incredulidade. 
É preciso que dentro de nós tenhamos também a nossa própria Avalon,  a nossa capacidade de imaginar e sonhar, e tê-la sempre protegida, arredada da falta de crença de que não podemos alcançar a nossa utopia