sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A Queimar Aguardente

Em Roriz, na casa paterna de Daniel Sá 

Através da Amelinha, professora aposentada, natural de Travancas, fui convidado para ir a Roriz, ver o seu marido destilar bagaço, em casa dos pais.
 
 
 
Entusiasmado com o convite, dia 27 de setembro, à hora aprazada, apresentei-me aos anfitriões da família Sá, os irmãos Daniel e Luis.
 
 
 
 
Em Roriz, enganei-me no caminho. A pessoa a quem perguntei pela casa da dona Celeste, advertiu-me que "lá não tem ninguém". Não me preocupei, sabia que me esperavam. No largo do edifício oval encontrei um senhor que me levou até ao  portão e me serviu de cicerone na visita à aldeia.
 
 
Freguesia, "desde sempre", Roriz vai ficar integrada na de Travancas, com a reforma autárquica. Há discordâncias, mas a resignação de gente idosa é maior; "eles (os  políticos) é  que mandam"...
 
 
 
Exteriormente, passou-me despercebida. Como qualquer casa, de lavrador abastado, só revelou a sua beleza quando me encontrei dentro das robustas paredes de granito. No pátio de acesso ao lagar, adornado com exuberante latada, senti-me no umbral de uma casa encantada, povoada de  persongens das Pupilas do Senhor Reitor, da  Cidade e as Serras ou dos romances de Camilo Castelo Branco.
 
 
 
A aguardente artesanal foi feita neste tradicional alambique de cobre, composto por uma caldeira e um capacete, unidos por uma pasta de cinza. Em Travancas, como não há alambiques, os produtores de vinho que pretendam fabricar bagaceira, levam a canga a uma destilaria de Chaves.
 
 
 
Não é o caso de Daniel Sá e  do senhor padre Helder,  arcipreste da igreja matriz de Chaves, que queimam a aguardente no cabanal da casa paterna, onde também existe um lagar de vinho que já serviu de pocilga, aos recos cevados para a matança.
 
 
 
Uma casa  de lavoura, tão importante, como esta, não cozia pão no forno do povo; usava o próprio, e dispunha de tulha para armazenar o centeio.
 
 
 
A canga, subproduto do mosto vinificado, composto por cangaço (pedúnculos e ramificações dos cachos), peles de bagos e graínhas, é colocada dentro da caldeira de cobre, às camadas, misturada com dois garrafões de água.
 
 
 
 
A caldeira com o bagaço é colocada por cima da lenha a arder.
 
 




 
Com o aquecimento, começam a libertar-se vapores que se introduzem num tubo, arrefecido com água fria, contida numa pia, de comida para recos. 
Em contacto com ela, dá-se a condensação do vapor que passa para o estado líquido e vai sair por um tubo, caindo para dentro de um jarro.
 
 
 
Enquanto se processava a destilação do bagaço, o engenheiro Luis e o seu irmão, dois dos nove herdeiros, sabendo que aprecio património edificado tradicional, andaram a mostrar-me a casa e o bucólico espaço envolvente. 
 
Trata-se de uma recatada propriedade, dentro da aldeia, com mina, fonte, poço de água e recantos frondosos, onde me perderia, de bom grado, em comunhão com a Natureza.
 
 
 
Nestas terras montanhosas da raia, não há fidalgos nem Casas Grandes, brasonadas. A população pertence à plebe, embora estratificada em lavradores e cabaneiros, noutros tempos.
 
 
 
Cozinha de grandes dimensões, em altura e largueza. Impressionou-me, tal como a decoração e a robustez do rico mobiliário, iluminado por uma luz tênue que entrava pelas cortinas das estreitas janelas de granito. Que saborosos salpicões não terão sido fumados nos lareiros!
 
 

Imagem do tempo em que a população, sem energia elétrica, vivia à margem do mundo, dito civilizado. Entretanto, no espaço de uma geração, televisão, computador, vídeo, internet, telemóvel, Iphone, massificam a cultura, despojando as comunidades rurais da sua identidade.
 
 
 
Moderna cozinha, de antanho,  de uma casa que os nove irmãos preservam  com o amor que os fiéis devotam a um relíquia.
 

 
As casas de lavrador, como a dos irmãos Sá, representativas de uma época e de um estrato social, são de grande valor patrimonial e cultural.
 
 

Na adega, típicos alguidares de barro preto de Nantes, hoje sem serventia, são testemunho de uma época em que a agricultura era a principal atividade.
 
 

 Nas talhas  guardavam-se castanhas, azeitonas,  pimentos e tomates no vinagre...



Pipas de vinho personalizadas, com as iniciais do nome do proprietário, Alberto S. SÁ 
 
 
A destilação do bagaço demora algumas horas. De regresso ao cabanal, Daniel Sá, provou e deu a provar a bagaceira nova, um líquido incolor cujo teor alcóolico é superior a 40 por cento.
 
  

 
 

 Macia e aromática
 
 
 
Bom "Presunto de Chaves", vinho tinto e pão de mistura, para findar a visita à "queima do bagaço".
 
 
 
Na quinta da família, se transformada em Casa de Turismo Rural, ter-se-iam umas férias revigorantes, em contato com a natureza. E porque não provar a bagaceira feita pelos proprietários? Até as constipações passavam!


Cruz Ansata Egípcia em Roriz
Cruz da vida eterna
 
A ida à destilação do bagaço proporcionou-me o encontro com uma aldeia de montanha, rica em património edificado. Pelo que vi, presumo que por lá deve ter andado mestre de cantaria, iniciado na arte real. A descoberta de uma cruz ansata egipcia, numa fonte, por cima da cruz latina, intrigou-me. Que pedreiro a terá  talhado? Quando? Porquê? Um enigma que gostaria de decifrar!
 
RORIZ, VALE BEM NOVA VISITA!

 
 
 



domingo, 14 de outubro de 2012

Tirada do vinho e do bagaço

A seguir à pisa das uvas
 Fotógrafo: Beto
Depois de 16 dias de lagar, a contar da pisa das uvas, dia 27 de setembro, ficou concluída a fermentação alcoólica do mosto. Só a seguir se procedeu ao vazamento, ou seja, à tirada do vinho e do bagaço do lagar.


Nesse período de tempo, em que o sumo adocicado ficou a azedar, o açúcar das uvas, com a fermentação, foi transformado em alcool. Concluída a operação de "baixar a cortiça ao vinho", este foi tirado para  cubas de inox. No lagar, para ser prensada, ficou a massa, encharcada de vinho.



Separação do bagaço e do vinho residual.


Enchimento da barrica de prensagem...


...com cangaço, peles de uvas, graínhas e algum vinho que restou. 
 
 
Calcando bem o bagaço, antes da prensagem.

 
 Espremendo a canga.

 
Vinho residual coado, de cor bastante intensa, a ser vazado do lagar.  Pode não ser de tão boa qualidade, se o cangaço e as graínhas ficaram partidos durante a pisada das uvas.
 
 
Cubas de aço inox, onde o vinho do Gustavo, cerca de 3.600 litros,  vai ficar armazenado, para amadurecer. Cada uma tem capacidade superior a 2 000 litros. O engarrafamento, será feito a partir de janeiro ou fevereiro de 2013.
 
 
 Bagaço, depois de prensado.
 
 
Enchendo sacos de canga. 
 

Canga ensacada, para fabrico de aguardente bagaceira, em alambique tradicional ou em destilaria industrial.


Alambique
 
 
Baco, deus do vinho
No dia de São Martinho, está prometido que será feita a prova do vinho novo, mas sem borracheiras! Quem garante?
 
 
 
 
 

 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Gostinho apanha tortulho

Cogumelo de 1,350 kg causa admiração

Foto cedida pelo Beto
Com as primeiras chuvas de outono, os cogumelos começam a aparecer aqui e ali. Há dias, o senhor Augusto, de Travancas, teve a sorte de encontrar um tortulho enorme, espécie de cogumelo bastante rentável para quem os apanha, com o intuito de vendê-los.
 
 
Os tortulhos, apesar de serem dos cogumelos mais caros, pela raridade, sabor e valor nutritivo, são muito procurados por restaurantes e consumidores. 
 
 
De há uns anos a esta parte, em Trás-os-Montes, realizam-se feiras micológicas.
Em Vila Pouca de Aguiar, onde em novembro se realiza uma feira anual, calcula-se que este ano a apanha possa render 40 000 euros. 
Mogadouro tem um Festival Gastronómico de cogumelos silvestres, no final do mês de outubro.
 
 
Em Travancas há matéria prima para eventuais apanhadores, amigos da natureza, desde que não os arranquem, mas os cortem pelo pé.
 
 
 
 
 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Pisada das Uvas

Numa terra sem vinhas

Em Travancas, Argemil e São Cornélio, terras de montanha, pisam-se uvas no lagar, segundo o método tradicional de esmagar os bagos com os pés, sem danificar o cangaço e as graínhas.
 
 
"...De aí a nada, arregaçados, os homens iam esmagando os cachos num movimento onde havia qualquer coisa de coito, de quente e sensual violação. Doirados, negros, roxos, amarelos, azuis, os bagos eram acenos de olhos lascivos numa cama de amor. E como falos gigantescos, as pernas dos pisadores rasgavam mácula e carinhosamente a virgindade tímida e feminina das uvas."
Miguel Torga, As Vindimas
 


Apesar da cultura da vinha não se adaptar ao clima frio, os apreciadores de vinho, continuam a tradição de descer às aldeias da Terra Quente, ou ir aqui mais perto, a Santa Valha, Curral de Vacas e a tantas outras terras, para comprar uvas.  
 


Máquina para esmagar uvas. Quando são deitados ao lagar, para serem pisados, cangaço, peles dos bagos e graínhas já vão misturados com algum mosto, sumo adocicado de uva.
 


No passado dia 27 de setembro, no lagar do Gustavo, sete amigos, durante duas horas, pisaram uvas compradas em São Pedro Velho, concelho de Mirandela, para fazer 3 600 litros de vinho.


"A princípio, a pele branca das coxas, lisa e morna, deixava escorrer os salpicos de mosto sem se tingir. Mas com a continuação ia tomando a cor roxa, cada vez mais carregada, do moreto, do sousão, da tinta carvalha, da touriga e do bastardo."
Miguel Torga, As Vindimas

 


Ambiente alegre, animado pelo Isaac, que não parou de cantar, puxando pelos restantes.
 
 
"A primeira violação tirava apenas a cada cacho a flor de uma integridade fechada. Era o  corte. Depois, os êmbolos iam mais fundo, rasgavam mais, esmagavam com redobrada sensualidade, e  o mosto ensanguentava-se e cobria-se de uma espuma leve de volúpia."
Miguel Torga, As Vindimas




Desde a minha infância que não entrava num lagar de vinho. Naquele tempo, os cachos de uvas, transportados em carros de bois,  dentro de dornas, eram despejados diretamente para o lagar. E a festa da lagarada durava até ao amanhecer!


"À tona, a roçá-los  como talismãs, passeavam então volumosos e verdadeiros sexos de pisadores, repousados mas vivos por dentro das ceroulas de tomentos..."
Miguel Torga, As Vindimas
 



No final do pisar das uvas o mosto fica em repouso, até fermentar. Passados três a quatro dias, o Betinho entra no lagar do pai para "baixar a cortiça ao vinho".  Com a fermentação, a canga sobe à tona, flutuando sobre o mosto que, ao azedar, se transforma em vinho. Ao fim de mais duas semanas, o vinho é separado do  bagaço e metido em cubas de carvalho, para amadurecimento, até janeiro ou fevereiro. Mas há quem prove o vinho novo, pelo São Martinho.
 


 Oui, oui, oui!
 


Durante a lagarada, a dona Maria mimoseou os "seus trabalhadores" com deliciosos pastéis de bacalhau.

Cerveja e vinho da safra do ano anterior, ajudaram a molhar as gargantas secas pela cantoria.
Ai verdinho, meu verdinho
Já saíste da videira (bis)
Escorrega devagarinho
Apaga-me esta fogueira (bis)



Diversas pessoas, incluindo galegos de Vilardevós, em momentos diferentes, passaram pelo lagar, como espectadores. O Mário foi um deles. Neste momento encontra-se no hospital de Chaves, devido a um AVC,  sofrido dias antes de regressar a França.


A festa terminou em alegre jantarada, em casa do Gustavo, dono do Café Central.


Não há vinhedos na freguesia mas há bastantes videiras de jardim, como em casa do Chico Melo.
 
 
Cachos de uvas na Rua Camões. Há quem garanta que se faz vinho com elas.
 
 
 
Bonita latada,  em formação, na Rua do Sol.
 
 
A lagarada é mesmo uma festa! Um bom momento para recordar cantigas que não morrem.