segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Romagem aos Cemitérios

No dia de Fiéis Defuntos, Travancas
São Cornélio, domingo, 8 novembro, 11h
Argemil, domingo, 8 novembro, 15 h


Senhor Ramiro, com seu ar bem disposto, depois de muito tempo acamado,  fez questão de marcar presença na celebração da Eucaristia.


Saída da procissão, após a missa, em direção ao cemitério de Travancas. Pelo caminho rezou-se o terço.


Sempre, muito povo, a participar na romagem ao cemitério, costume que se vai mantendo e traz a Travancas  filhos da terra residentes noutras regiões do país e no estrangeiro.


Os cemitérios, além de local de culto dos mortos, são espaços de sociabilidade, onde se reencontram familiares, amigos e vizinhos que há muito não se viam.


São os dois de Argemil mas o senhor Manuel Batista, autor do livro "Justiça Iníqua", veio do Porto visitar a campa do senhor Magno, seu pai, julgado em tribunal por causa de uma história envolvendo acusação de contrabando de recos, em 1942.


Domingo, Dia de Todos os Santos, familiares dos falecidos deslocaram-se ao cemitério, para limpar os jazigos, colocar vasos de flores e acender velas.


No Dia de Finados, depois da procissão, terminou-se de rezar o terço  no cemitério. Em seguida, o senhor padre Delmino disse algumas palavras alusivas ao dia e à saudade dos que partiram.


Flashes

Familiares em recolhimento, diante do túmulo daqueles que não são esquecidos.


Uma oração, uma memória...


Flores viçosas


Últimos miminhos àqueles a quem se ama.


Minha mãe, minha saudade.
Tu foste e deixaste o teu amor comigo.
Esse é eterno. Indestrutível.
Vivo por ele, nele.
Se hoje sou um homem de bem, é porque sou o filho da Dona Élia.
Obrigado por teres feito de mim o que sou hoje.
Amo-te, para sempre.
                                                                      Adaptação 


A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida. 
                                      Fernando Pessoa

É assim, todos os anos, um ritual em que os vivos prestam homenagem ao que partiram.





quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Ode ao Outono


Em gradeamento e varanda de ferro

Primeiro, as heras avermelhadas, no muro de pedra velha, são sinal de que o verão se extingue e o outono vem a caminho.


Depois, dia após dia,  o tapete de erva verdejante cobre-se com o manto de folhas caducas, de diferentes tonalidades de verde, amarelo, vermelho, castanho e violeta.  Com a vista mergulhada na dádiva da palete de cores  vivas, o coração exulta de alegria, entoando louvores ao Criador.



No outono, após as primeiras chuvas, descobre-se que brotam do chão cabeças de frade, níscaros e outras variedades de cogumelos, nem todos, porém, comestíveis.



Recordar é viver
No outono, até a velha varanda de ferro, cor de ferrugem, se torna mais bela, quando banhada pela luz  suave  das tardes ensolaradas. Recordações saltam à memória, dando lugar à saudade de tempos idos.


Observar a Natureza, estar atento ao que nos rodeia, é como estarmos a olhar-nos ao espelho!



Na Natureza vemos  reflectida a nossa imagem, em lenta transformação. Nascer, crescer, reproduzir, envelhecer, morrer, num processo de vida, morte e  renascimento contínuo.


Bela vista
Primeiro, o souto e os campos, semeados  de pão, do Vale da Bouça; depois, Argemil da Raia; em tons azulados, ao fundo, as montanhas da Galiza... O que a Natureza fez igual, os homens dividiram.


Varandas da tua, da minha casa, um olhar para o mundo...


Ai, como eu gosto do Outono!
Tenho 'morrinha'!
Tenho saudade!



Algumas das árvores fotografadas foram plantadas por mim, por serem espécies de folha caduca, plantas que contribuem para o meu bem estar psíquico e emocional.



Uma vigorante caminhada, para fazer em dias de outono, é ir pelo caminho do contrabando, de Travancas às ruínas de Palheiros, passando pelo alto da Fonte Fria.

Se se plantassem mais árvores de folha caduca à beira do caminho...


...Ganhariam, em beleza, as aldeias raianas e, em prazer desfrutado, aqueles que palmilham Terras da Raia!




Travancas no outono


Na fronteira da Natureza: Perseverância, viglância


Para concluir...
Autant de souvenirs / Tentas recordações
De tous les jours qui dorment là / De todos os dias que dormem lá
Dans le bois de la vieille porte.. / Na madeira da velha porta...

Adaptação de texto  "La Vieille Barque", de Mireille Mathieu



quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Muita Castanha e boa

Preço inferior ao da última campanha

Boa colheita, sinónimo de maior rendimento?  Pode não ser porque o preço da castanha não é determinado pelo produtor.


Nas terras altas da raia já há dez dias que se anda na apanha da castanha.


Este ano fiz a minha estreia, tendo apanhado várias cestas no primeiro dia. Todavia, se andasse à jeira, o patrão ficaria satisfeito com a minha produtividade? Para encher a cesta, com cerca de 10 kg, demorei sempre mais de uma hora!


O senhor Fernando, a dar uma volta nos castanheiros que tem perto da capela do Senhor dos Aflitos, ensinou-me a identificar as variedades judia e longal.



Hoje esteve um lindo dia  de sol de outono. No regresso de ida a Chaves, despachar castanha para o pessoal de Lisboa, passei por São Cornélio e  Roriz. Na primeira aldeia não encontrei ninguém a apanhar castanhas. Em Roriz, no ano passado, neste grande souto não as havia, devido à doença que tinha atacado os castanheiros. Como vi o trator encostei o carro à berma.


Aproximei-me. E quem foi que encontrei na apanha da castanha? A tia e a mãe do Ricardo, o "maçom" de Roriz!


O souto é do povo - ou da Junta? A família trá-lo de renda, a meias.  Em Roriz, tal como em Argemil, há terrenos baldios que são geridos pelas associações de compartes.


"O Ricardo foi para a Suíça". Que pena, pensei eu. Mais um jovem sem esperança de viver  feliz na sua terra. Perde Portugal, ganha a Suiça com mão de obra jovem, disponível para o trabalho, sem ter gasto um cêntimo na sua formação. 


Nem só castanhas se apanham nos soutos. "Gosta de níscaros?". Pelo-me por eles! A mãe do Ricardo, uma simpática senhora que já conhecia, ofereceu-me os que tinha no balde. Mas, como não sei prepará-los, tenho de perguntar ao Delmar ou à Juraci! De certeza que sabem!



Quando regressei a Travancas encontrei o Betinho na pesagem das castanhas. Há cada vez mais famílias  a tirar nelas o rendimento que as batatas deixaram de dar.


Este ano, embora o fruto dos frutos, como Miguel Torga se referia à castanha, já  tenha sido vendido a 2 euros o kg, no momento o preço varia entre 1,80 a judia e 1,10 a longal.  No ano anterior a mais cara chegou a ser vendida a 2,50 euros!



O intermediário de Chaves já tinha o camião quase cheio de sacos de castanha.  Não é o único a vir à montanha comprar castanha. Segundo ele, em São Vicente da Raia, situada a uma cota mais baixa, há pouca. A elevada produção não é geral, portanto!

Estimativas 
Argemil = 20 000 kg
São Cornélio = 2.500 kg
Travancas = 10 000 kg
Roriz = ?


Os magustos são a seguir!
Também estão aí as feiras da castanha em Carrazêdo de  Montenegro e em Vinhais.  Olá, Rural Castanea!  O pessoal de Travancas da Raia vai aí no domingo!




sábado, 17 de outubro de 2015

Ricardo, o 'maçom' de Roriz

E o enigma da cruz egípcia 

Um dos símbolos mais sagrados do Antigo Egito, a cruz ansata ou cruz Ankh, esculpido numa fonte de Roriz, remota aldeia de montanha, junto à raia, intrigou-me. 



Partindo do pressuposto de que não seria obra de trolha mas de mestre pedreiro, conhecedor de símbolos esotéricos egípcios, indaguei desde quando é que a cruz da vida estava na fonte. Quando soube que datava de 2005, portanto, sem  valor histórico como o albergue de peregrinos de Santiago, não fiquei desiludido.



Pelo contrário, quis conhecer o Ricardo, moço de Roriz, autor da cruz egípcia, feita no âmbito de um  exame de aplicação prática de competências, adquiridas num curso de desenho projetista.



"Gosto muito de mistérios antigos... a cruz simboliza a vida, as águas do Nilo..."



O Ricardo não saiu da aldeia; faz parte de uma associação que, embora  já tenha organizado um torneio de futebol, está parada. A falta de jovens é um dos  problemas que aponta para a inércia da associação. A solução, para a revitalizar, talvez passe por incluir jovens de outras aldeias  da União das Freguesias de Travancas e Roriz. Porque não?



Antiga escola primária onde traçou os primeiros desenhos. Dotado de sensibilidade artística, acredita que "a arte responde às nossas perguntas" e que "às vezes as grandes oportunidades aparecem disfarçadas atrás de tarefas árduas".
É assim o Ricardo, tão misterioso como a arte da Terra de Mênfis.



Na união das duas freguesias já tínhamos em Argemil um promissor pintor, o Luís; Agora, no "Ricardo, Coração de Leão" de Roriz, podemos ter um 'rei' arquiteto, mestre na arte de desbastar a pedra, usando o malho e o cinzel. 


"Para mim é gratificante ser reconhecido pelas pessoas da terra"
Quem lhe dá então a mão, para poder mostrar o seu valor  e, assim concretizar o louvável sonho  de ser mestre pedreiro, arquiteto de obras emblemáticas, como os templos de Salomão e de Luxor?