Ruínas de aldeia incendiada em 1641
Grupos de senhoras de São Cornélio, Argemil e Travancas têm o hábito salutar de caminhar ao longo da estrada que une as aldeias do planalto à Bulideira.
No entanto, há percursos, como os que outrora partiam de Argemil e Travancas para Palheiros, e de lá para Arçádegos, que pela beleza paisagística, património edificado, histórias de contrabando e de emigração a salto, merecem ser redescobertos.

Acedendo ao convite da filha, de irmos a Palheiros, a pé, assumi o papel de guia. Partimos do cruzeiro de S.Tiago, em direção à Fonte Fria, indo pelo caminho que fazem os pastores, ao anoitecer, de regresso a Argemil.
Nesta bifurcação, depois de hesitar, optei pelo caminho à esquerda.
Sempre a subir, passámos por alguns soutos, harmoniosamente plantados...
... e searas de centeio. Vistas largas, paisagem deslumbrante.
Altaneiro, o posto de vigia florestal servia de bússula. Todavia, de pouco nos valeu, porque o caminho tomado na bifurcação desembocou na estrada alcatroada, um pouco abaixo do Vale da Preta.
No Vale da Preta seguimos pelo estradão que desce para a Fonte Salgueiro. Trajeto acolhedor, bordejado por carvalheiras.
Cabana da Faceira, atestando aquilo que está nos livros: que os pastores
percorriam uma rota que no Verão os trazia às lamas das terras altas,
para apascentar os rebanhos; nos casarelhos faziam lume e passavam noites, abrigados do
frio e dos lobos. Vidas solitárias a destes homens.
Rigueiro de Palheiros, Nascido a umas centenas de metros acima, na Cota de Mairos, ainda leva pouca auga. No tratado de demarcação de fronteiras, em 1864, ficou a servir de linha divisória, entre os reinos de Portugal e Espanha.

Vista tonificante para os amantes da Natureza.
Do lameiro e da seara para baixo, até às ruínas, a encosta é
íngreme; A calheia da Faceira e o trilho, outrora também percorridos por contrabandistas, estão
cobertos por giestas e vegetação espessa.
Para adeptos de caminhadas lúdicas, e para bem da
preservação da memória coletiva da gente raiana, torna-se urgente a sua
limpeza e sinalética.
Relativamente à primeira visita que fiz a Palheiros, de descoberta das ruínas em 2014, noto uma progressão do matagal, na área das casas esborralhdas. Impossível chegar ao marco 271!
Palheiros, no termo de Argemil, apesar de ter pertencido a Portugal desde o Condado Portucalense, tal como Arçádegos e outras aldeias galegas da raia, em 1641 era uma aldeia habitada por galegos.
Nas guerras da Restauração, 1640-1668, foi incendiada, entre outras, por militares do castelo de Monforte de Rio Livre, em represália por os espanhóis terem saqueado e incendiado Travancas, Argemil e São Vicente.
Tinha 60 casas colmeadas. Os seus moradores fugiram e nunca mais regressaram, mesmo após a assinatura do Tratado de Paz, pelo qual a Espanha reconhecia a Restauração da Independência de Portugal.
Sobre Palheiros escreveu o Abade de Baçal, pároco de Mairos e Travancas entre 1889 e 1896.
O abade, ainda um jovem no inicio da vida sacerdotal, terminada a missa em Travancas, no regresso a Mairos passava por Palheiros, onde ia à caça da perdiz.
No local convivia com caçadores, guardas-fiscais, contrabandistas e um galego de Arçádegos que aos domingos, de Setembro a Março, aí vinha com a mulher matar uma vitela, de que todos comiam postas temperadas com sal, assadas na brasa.
Finda a visita às ruínas, fizemos o caminho inverso. Subimos a encosta por uma vreia que ladeia os lameiros. Paisagem bucólica de onde não havia pressa em sair.
Já quase no alto da encosta, a vista alargou-se para poente e vimos à nossa frente o marco da Cota, território espanhol, e os três aerogeradores portugueses do Vale Grande.
Descida para a Fonte Fria, local onde se construiu o primitivo quartel da guarda-fiscal de Travancas. A mudança para a aldeia fez-se. porque os guardas se queixavam do isolamento e do frio.
Caminhada, sob sol ardente, quase a terminar. Embora não tenha medido distâncias nem contado o tempo, calculo que em cada sentido, andando devagar, tenhamos demorado cerca de uma hora.
Travancas à vista. Castanheiros do Vale da Bouça e últimas casas da aldeia, na estrada que vai para a fronteira.
Foi uma caminhada revigorante. Lenitivo para desbravar, entre outros, o Caminho do Abade de Baçal entre Travancas e Mairos.