quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Ainda há lavadeiras

Nas terras da raia 

Um filme francês, Les Lavandières du Portugal, realizado em 1957, para publicitar uma nova máquina de lavar roupa, retrata um Portugal rural, de lavadeiras do rio.  


Lavadeira do século XXI: Dona Conceição Preciosa
 


De fato, na  década de 50 do século XX, encontramos lavadeiras em todas as  localidades banhadas por ribeiros e rios, como em Chaves e Amarante, no Tâmega; em Vila Real, no Corgo; ou em Mirandela, no Tua, para apenas citar exemplos de lavadeiras deTrás-os-Montes..

 

No filme,  agentes de empresas concorrentes, procuram convencer uma lavadeira de rio para ir a Paris publicitar a lavagem da roupa numa moderna máquina de lavar.



Em Travancas, porém, aldeia sem eletricidade até aos anos 70 do século passado, as máquinas de lavar roupa só chegaram há menos de 50 anos.



Até então, a lavagem de roupa continuou a ser feita à mão. Em tempos mais recuados, numa poça  do Cavanco, em frente à Bica do Rigueiro.



 
Nos anos 70 do século XX, o rigueiro da Rua de Camões foi canalizado e a poça do Cavanco deixou de existir. A partir dessa altura  as lavadeiras passaram a lavar a roupa mais acima, no lavadouro, espaço de sociabilidade e de controle social,



No século  XXI, apesar de já haver água canalizada ao domicilio; apesar de estar generalizado  o uso de máquinas de lavar roupa, há mulheres raianas que não perdem hábitos ancestrais das  lavadeiras de rio  e continuem, esporadicamente, a lavar  no lavadouro público ou em tanques privativos porque na aldeia não há rio. 



Lavadeira de rio, transmontana

Povo que lavas no rio
Que talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não 




segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Caminhada a Palheiros

 Ruínas de aldeia incendiada em 1641

Grupos de senhoras de São Cornélio, Argemil e Travancas têm o hábito salutar de caminhar ao longo da estrada que une as aldeias do planalto à Bulideira. 

No entanto, há percursos, como os que outrora partiam de Argemil e Travancas para Palheiros, e de lá para Arçádegos, que pela beleza paisagística, património edificado, histórias de contrabando e de emigração a salto, merecem ser redescobertos. 


Acedendo ao convite da filha,  de irmos a Palheiros, a pé,  assumi o papel de guia. Partimos do cruzeiro de S.Tiago, em direção à Fonte Fria, indo pelo caminho que fazem   os pastores, ao anoitecer,  de  regresso a Argemil.


Nesta bifurcação, depois de hesitar, optei pelo caminho à esquerda.

 

Sempre a subir, passámos por alguns soutos, harmoniosamente plantados...

 

... e searas de centeio.  Vistas largas, paisagem deslumbrante.

Altaneiro, o posto de vigia florestal servia de bússula. Todavia, de pouco nos valeu, porque o caminho tomado na bifurcação desembocou na estrada alcatroada, um pouco abaixo do Vale da Preta. 

No Vale da Preta seguimos pelo estradão que desce para a Fonte Salgueiro.  Trajeto acolhedor, bordejado por carvalheiras.

 

Cabana da Faceira, atestando aquilo que está nos livros: que os pastores percorriam uma rota que no Verão os trazia às lamas das terras altas, para apascentar os rebanhos; nos casarelhos faziam lume e passavam noites, abrigados do frio e dos  lobos. Vidas solitárias a destes homens.


Rigueiro de Palheiros, Nascido a umas centenas de metros acima, na Cota de Mairos, ainda leva pouca auga. No tratado de demarcação de fronteiras, em 1864, ficou a servir de linha divisória, entre os reinos de Portugal e Espanha.


Vista tonificante para os amantes da Natureza.

Do lameiro e da seara para baixo, até às ruínas, a encosta é íngreme;  A calheia da Faceira e o trilho, outrora também percorridos por contrabandistas, estão cobertos por giestas e vegetação  espessa.  

Para adeptos de caminhadas lúdicas, e para bem da preservação da memória coletiva da gente raiana, torna-se urgente a sua limpeza e sinalética.


Relativamente à primeira visita que fiz a Palheiros, de descoberta das ruínas em 2014,  noto uma progressão do matagal, na área das casas esborralhdas. Impossível chegar ao marco 271!


Palheiros, no termo de Argemil, apesar de ter pertencido a Portugal desde o Condado Portucalense, tal como Arçádegos e outras aldeias galegas da raia, em 1641 era uma aldeia habitada por galegos. 

Nas guerras da Restauração, 1640-1668, foi incendiada, entre outras, por militares  do castelo de Monforte de Rio Livre, em represália por os espanhóis terem saqueado e incendiado Travancas, Argemil e São Vicente. 

Tinha 60 casas colmeadas. Os seus moradores fugiram  e nunca mais regressaram, mesmo após a assinatura do Tratado de Paz, pelo qual a Espanha reconhecia a Restauração da Independência de Portugal.


Sobre Palheiros escreveu o Abade de Baçal, pároco de Mairos e Travancas entre  1889 e 1896. 
O abade, ainda um jovem no inicio da vida sacerdotal, terminada a missa em Travancas, no regresso a Mairos passava por Palheiros, onde ia à caça da perdiz. 
No local convivia com caçadores, guardas-fiscais, contrabandistas e um galego de Arçádegos que aos domingos, de Setembro  a Março, aí vinha com a mulher matar uma vitela, de que todos comiam postas temperadas com sal, assadas na brasa.



Finda a visita às ruínas, fizemos o caminho inverso. Subimos a encosta por uma vreia que ladeia os lameiros. Paisagem bucólica de onde não havia pressa em sair.


Já quase no alto da encosta, a vista alargou-se para poente e vimos à nossa frente  o marco da Cota, território espanhol,  e os três aerogeradores portugueses do Vale Grande.


Descida para a Fonte Fria, local onde se construiu o primitivo quartel da guarda-fiscal de Travancas. A mudança para a aldeia fez-se. porque os guardas se queixavam do isolamento e do frio.


Caminhada, sob sol ardente, quase a terminar. Embora não tenha medido distâncias nem contado  o tempo, calculo que em cada sentido, andando devagar, tenhamos demorado  cerca de uma hora.

Travancas à vista. Castanheiros do Vale da Bouça e últimas casas da aldeia, na estrada que vai para a fronteira.

Foi uma caminhada revigorante. Lenitivo para desbravar, entre outros, o Caminho do Abade de Baçal entre Travancas e Mairos.



sábado, 8 de agosto de 2020

Patriarca dos Maldonado

Partiu para o Pai

Realizou-se hoje  o funeral do senhor Antonio Maldonado, abastado agricultor de Travancas, falecido no lar de Chaves, onde vivia, desde há uns anos. 


Antonio de Paiva Maldonado

97 anos


Na sua longa vida, devido ao poder económico e social que lhe advinha de ser empregador, marcou a vida de várias gerações. 

Democrata, acolheu oposicionistas fugidos ao Salazarismo e ao Franquismo. 

Nas décadas que antecederam a abolição de fronteiras, foi personagem central da Rota do Contrabando que passava por Travancas mas cuja história está por escrever. 

Lamento não ter feito o registo do seu testemunho.

 

Ao Zé Maldonado e à restante família enlutada deixo sentidos pêsames.




sexta-feira, 31 de julho de 2020

Incêndio às portas da aldeia

Castanheiros crestados pelas chamas

Por-do-sol sob névoa de fumo ardente



Barragem do Vale das Tábuas e Serra de Mairos calcinada


Um incêndio de grande dimensão, que se supõe ser de origem criminosa, deflagrou, pelas 15h30 do dia 29 de julho, em Vila Verde da Raia.

As chamas, em três frentes, foram puxadas pelo vento em direção a Curral de Vacas e Mairos.

Às 17 horas, na foto, o fogo estava em  Mairos, aldeia onde reduziu a cinzas a mata  que envolve a capela de S. Tiago. Subindo a encosta do Vale Grande, chegou a Travancas pouco depois.




Com a aproximação do fogo instalou-se a angústia e medo  nos moradores, receosos de que as chamas chegassem  às casas. Às 18h50, no cimo das ruas  Direita, do Sol e 1º de Maio, começaram a arder pinheiros, carvalhos, giestas e castanheiros.


Minutos antes, militares da GNR, à civil, com o objetivo de salvar vidas, forçaram os moradores a abandonar rapidamente as suas casas. No Largo de São Bartolomeu, tido por seguro,  concentraram-se mulheres, crianças e alguns homens.


Armazém dos Maldonados e poste retransmissor  de rede telefónica.


A casa da Rua do Sol, miraculosamente não foi consumida pelas chamas.



Foi tudo rápido. Em poucos minutos as chamas queimaram tudo quanto era passível de combustão.




No rescaldo, por entre o fumo e o cheiro a queimado para apagar troncos ainda fumegantes e calcinados.


 
À volta do antigo quartel da guarda-fiscal e da antiga escola primária as chamas abrasadoras calcinaram a vegetação.



Baldes de água e mangueiras usadas para apagar focos fumegantes







Os bombeiros passaram por  Travancas sem apagar chamas. A tragédia foi evitada graças à ação de moradores que, sulcando regos com os tratores, travaram a progressão das chamas a poucos metros ds habitações.







Fardos de palha do senhor Heitor, de Argemil,  devorados  pelas chamas













 Ficou tudo reduzido a cinzas, em ambos os lados da estrada, desde o Vale Grande até à Roçada, entrada da aldeia. Uma imagem desoladora,  a fazer lembrar o grande incêndio de há 15 anos.












Imagem desoladora,  a fazer lembrar o grande incêndio de há 15 anos.





Ouriço cacheiro encontrado morto. 
Outros animais terão sido queimados pelas chamas, incluindo de grande porte. Fala-se em seis javalis e duas cabras montesas!


Flores na campa do ouriço-cacheiro, em chão calcinado, deixadas  por crianças  que presenciaram e ficaram marcadas pelo  incêndio.