Oração florestal
Foto tirada por João Pedro S. Pereira em 05-02-2005
Súplica da árvore ao viandante
Tu que passas e ergues para mim o teu braço,
Antes que me faças mal, olha-me bem.
Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de inverno.
Eu sou a sombra amiga que encontras
Quando caminhas sob o sol de agosto,
E os meus frutos são a frescura apetitosa
Que te sacia a sede nos caminhos.
Eu sou a trave amiga da tua casa, sou a tábua da tua mesa,
A cama em que tu descansas e o lenho do teu barco.
Eu sou o cabo da tua enxada, a porta da tua morada,
A madeira do teu berço e o conchego do teu caixão.
Eu sou o pão da bondade e a flor da beleza.
Tu que passas, olha-me bem e... não me faças mal.
Albano Q. Mira Saraiva
Travancas perde património florestal
Havia no Vale da Bouça um castanheiro monumental com várias centenas de anos. Era o de mais proveta idade, dos velhos castanheiros que durante séculos alimentaram os nossos antepassados, em caldos de castanha, e engordaram as cevas, com bilhós. Era acarinhado. Já os celtas, de quem descendemos, veneravam os castanheiros pela magia e abundância de alimento que deles pingava. Em Travancas, não havia outro castanheiro que igualasse o tronco deste, em envergadura lenhosa. Era tão grosso que só vários homens, dando as mãos, conseguiam abraçá-lo.
Foto tirada por euroluso em 21.11.2009
Durante séculos, imponente e grandioso, sobreviveu às doenças, às intempéries e ao machado. Sucumbiu no século XXI, à força da motoserra, empunhada pelo homem predador. Desconheço quando foi deitado abaixo, quem o fez e com que propósito. Sei que deve ter sido cortado por fases, como sugerem as fotos. Sei que fiquei triste, quando vi um espaço vazio, no lugar onde me habituara a admirar o seu porte majestoso.
Mais abaixo, ainda no Vale da Bouça, restam dois ou três castanheiros, de uns duzentos anos, que devem deixar de merecer a nossa indiferença e passarem a ser vistos como aliados e amigos do homem.
Espero que estes espetaculares seres vivos não sofram o destino do mais antigo castanheiro de Travancas e que o homem, respeitador da natureza, saiba honrar a memória de todos os que lhes deram vida e os conservaram durante séculos.
Porque não fazer um levantamento do património florestal da freguesia, considerando o seu interesse cultural? Porque não seguir o bom exemplo de São Vicente da Raia, onde um secular castanheiro é motivo de orgulho e está classificado como árvore de interesse público? Falta, no entanto, a Junta colocar, no tronco do ex-libris, uma placa a atestar-lhe a idade, de modo a publicitar a aldeia a nível cultural e turístico.