segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Outra Nevada

Chegada do Inverno com neve, frio gelado e chuva

Segundo nevão em poucos dias


Travancas, ontem à noite, cobriu-se de branco outra vez.


Começou a nevar por volta das 23 horas e em pouco tempo os farrapos de neve cobriram campos, ruas e telhados.


As geadas caídas nas últimas noites fizeram com que a neve aderisse bem e se transformasse em gelo. Mas, durante o dia, a chuva fria, caída com intensidade, foi derretendo a camada de neve gelada. Achei invulgar, para não dizer estranho, chover com a temperatura nos quatro graus negativos.

O primeiro dia oficial de Inverno foi mesmo de fazer tremer de frio qualquer cristão, impedido-o de ir à missa.


Aliás, as geadas e o trabalho de fazer fumeiro já tinham feito alguns estragos na frequência da missa dominical, facto que levou o senhor padre Delmino a comentar que era uma pena haver tantos bancos vazios, que as pessoas já não estavam para fazer sacrifícios.


Hoje passei o dia todo à lareira, sempre com a lenha a crepitar, sob pena de tiritar de frio. Na rua também não passava ninguém.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Neve e frio de volta!

Primeiro nevão isola aldeias da freguesia de Travancas




Que saudades, Deus meu!
Desde Domingo, dia de Santa Luzia, que a meteorologia anunciava o abaixamento da temperatura e a queda de neve, nas terras de Trás-os-Montes, situadas acima de 400 metros. Como estava sol e céu limpo, não acreditei muito na previsão mas ia desejando que a neve voltasse, durante a minha estadia na aldeia. Ela cá está a cair "branca e leve, branca e fria!"
Seis graus negativos às oito da manhã!



Às 7h30 era este o cenário que via da varanda de casa, deixado pela nevada caída durante a madrugada.


A queda de neve durante o dia, com regularidade e sem intensidade, cobriu as ruas de branco. Aderiu bem, devido à baixa temperatura, alguns graus abaixo de zero.


À conversa com a vizinha.


Saí de casa e dirigi-me ao Largo de São Bartolomeu.


No largo, havia matança. Quando cheguei, os porcos já estavam a ser chamuscados no baixo, ao lado dos tractores.


Com a pedra na mão, pronto para raspar as cevas.


Relações de vizinhança
Alheios ao frio e à neve, vizinhos entreajudam-se, à vez.


O Berto, como é chamado por amigos e familiares, não tem mãos a medir. Hoje matou mais três suínos.


Dentro, era grande a azáfama. As mulheres aparam as tripas e o bucho. Depois preparam as víceras para o butelo, alheiras e chouriças; separam o fígado, o bofe o e coração; lavam, varrem ...



Ao sair da loja, cruzei-me com a senhora de alguidar na mão. Iria ajudar à matança?


Passando pelo Lar do Senhor dos Aflitos, encontrei a Dona Libânia e outra senhora, atarefadas a fazer o almoço, porque as empregadas da cozinha tinham faltado, impedidas de chegar a Travancas, por causa da neve na estrada.



Esta casa de granito, em ruínas, fica na esquina da Rua do Cemitério e da primitiva via de saída e entrada de Travancas, na ligação da aldeia a Chaves, pela Bolideira. Impelido por um sentimento de saudade caminhei para a direita.






Tinha estado aqui em Novembro a fotografar o palheiro e as abóboras. Encanta-me a rusticidade do recanto, a ruralidade, as alfaias agrícolas, o mugido das vacas e o latido dos cães.










A caminhada na neve levou-me até à nossa últma morada. Parte de mim jaz aqui, sob este manto de brancura. Emocionado, interrogo-me sobre o sentido da vida e recordo o texto sagrado:

"Lembra-te que és pó e à terra voltarás".


Os sinos não tocaram
Estava marcada missa às nove horas da manhã, por intenção dos que partiram, mas o senhor padre Delmino não subiu ao planalto, impedido pela neve.



Ao lado da igreja, está este casarão, moribundo. A previsível demolição será uma perda irreparável, para o património edificado de Travancas. Sinto tristeza e revolta interior só de pensar, que uma das mais bonitas casas tradicionais da aldeia, irá ser deitada abaixo.



Casa da residência do padre, pertencente ao povo. O último sacerdote a habitá-la foi o senhor padre Moura. Portas cerradas e escadas que não levam a nada. Outra demolição à vista? Andar por Travancas, num dia de neve, propicia a reflexão sobre o que esta comunidade é e o que quer ser.



Casa de granito, no cimo do povo, a ser restaurada. As casas são como as pessoas, de vez em quando precisam de tratamentos para estarem bem.



Simbiose de modernidade com preservação da arquitectura tradicional. Que o exemplo frutifique!

A ronda pela aldeia terminou. Faltou-me andar pela estrada, ir ao Senhor dos Aflitos ...


Em Travancas, neve e azevinho, símbolos da quadra natalícia.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Matança do Reco

A tradição ainda é o que era


“Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã, a paz de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe do silêncio. Dias depois desmancha-se a bizarma e um pálio de fumeiro cobre a lareira”Miguel Torga - in “Portugal”, Coimbra 1950
Seis décadas depois De Miguel Torga ter escrito a obra "Portugal" a tradição da matança, sobre a qual paira o cutelo da ASAE, permanece viva em Trás-os-Montes. O ritual é o mesmo em todas as aldeias. Na Capital da Batata só não se mata o reco nas casas de quem não tem forças para fazer o fumeiro. Mesmo com o envelhecimento e a diminuição da população, calcula-se que por esta altura se matem umas quarenta cevas, metade do que era habitual.

O meu vizinho Tó matou ontem dois recos. Outros vizinhos fazem igual, matam dois ou mais. São poucos os que matam apenas um.


“O porco, criado e cevado com desvelos de que gozam poucos humanos, lá está a sangrar no banco do sacrifício. Berra que espanta a penumbra da madrugada, mas o seu sofrimento não encontra eco nos ouvidos de ninguém. Quanto mais barulhenta for a agonia, mais escoado ficará o seu corpo no chambaril."
Miguel Torga

Quando cheguei para assistir à matança já o primeiro porco estava a cuincar, ferido no coração pela faca certeira do matador.



Os dois bácoros, depois de mortos, foram levados de tractor para - junto da casa do Tó - serem chamuscados, lavados e abertos a fim de se lhes tirarem as entranhas.



Comprados na Galiza em Setembro, já capados, pesam, cada um, à volta de 130 kg. Durante a engorda foram alimentados com couves, batatas e abóboras. Bem feitas as contas fica cara a alimentação das cevas. O que vale é as pessoas terem hortas!



Chamuscando com maçaricoPara chamuscar o porco - queima dos pelos e da fina camada de pele sobre o couro - usa-se uma botija de gás e um maçarico em vez da tradicional palha de centeio. Como nas ceifas se enfarda logo a palha esta já nem existe e o uso do maçarico torna a tarefa de chamuscar mais fácil e rápida.



Desde criança que não via uma matança do reco. Causou-me, por isso, alguma estranheza, ver a pele do animal ser raspada com enxada.



Mas a raspagem com a enxada tem vantagens. Como o fogo é intenso, o cabo comprido salvaguarda de eventuais queimaduras quem tem que raspar a pele antes que o couro arrefeça.


































"Impressionou-me sempre na vida aldeã este cerimonial doméstico, que acaba por deixar um morto de pernas para o ar, pendurado na trave da casa. Na manjedoira vai nascer o Salvador; à lareira vai-se juntar a família; e à entrada da porta simbólica renovação do Ano Novo, o espantalho do cadáver que há-de alimentar o futuro!”
Miguel Torga


O goberno da casa
A carne de porco é o alimento de todo o ano.




Lavar e tirar excesso de sangue
As carnes de órgãos vitais são consumidas de imediato. O fígado pode ser assado no espeto e temperado com azeite; pode ser estofado no tacho e frito, em iscas. O coração come-se cozido ou frito. Do bofe fazem-se as bocheiras.



Enxugar
O desmanche do porco, para dar tempo do sangue escorrer, a carne arrefecer e enrijar com o frio, ficou para hoje, um dia depois da matança. No desmanche separam-se as carnes para o fumeiro, daqui a uma semana. Os presuntos e as orelhas vão para a salgadeira durante vinte dias, embora haja quem os ponha na arca frigorífica.