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sábado, 10 de agosto de 2019

Festa de São Cornélio '19

Reco assado a todos serve de chamariz

Há já alguns anos que São Cornélio mudou a festa do padroeiro da aldeia para o segundo de Agosto.



Este ano, ao arraial e à festa religiosa, que inclui missa e procissão...



,,, a comissão de festas, seguindo o exemplo de Mairos e de outras aldeias, aliciou potenciais visitantes, oferecendo sandes de reco assado, ao fim da tarde de domingo, dia 9 de Agosto, a todos que passassem pelo espaço do bar, localizado junto à igreja.



A festa foi animada por músicos contratados que tocaram modinhas conhecidas.

Aos de São Cornélio juntaram-se alguns de Travancas e Argemil.


E por todos o reco assado foi consumido, ajudando  a aumentar a venda de cerveja no bar.
Valentes!


domingo, 24 de janeiro de 2010

Modesto's Farm

La Ferme de Mr. Modesto
Para esta postagem tive dificuldade em encontrar um título, em português, que me agradasse, porque nas aldeias de Trás-os-Montes, onde o povoamento é concentrado, usa-se a palavra "casal" em vez de "quinta" para designar uma casa de lavoura, com animais e linhares.


Encontrei casualmente o senhor Modesto, agente reformado da GNR, na nevada de Natal, quando andava a fotografar a aldeia coberta de branco. O seu carro foi o primeiro a vir de Chaves para Travancas, rebocado por um trator, a partir de Mairos. Quando me viu, veio ter comigo e disse-me "-Venha ali ver os meus porquinhos!", e eu fui, agradado oom o convite.


Quando se entra pelo quintal é difícil não reparar nos vários carros abandonados que por lá se encontram. Faz-me pena, porque se ficassem num armazém, conservar-se-iam e dentro de algumas décadas seriam raridades. Assim, o destino provável dos carros é a sucata!


Não sabia quantos nem que animais tinha o senhor Modesto mas encontrei alguns. O primeiro que vi foi o gatinho, assustado por eu o querer fotografar.


Depois, foi o seu fiel amigo. Não me ladrou, talvez por estar a acompanhar o dono. Todavia não me recordo de me ter ladrado, quando anteriormente, andei a rondar o quintal, à procura de um ângulo ideal, para uma foto bonita.


Dentro de um dos dois armazéns, onde me levou, para me mostrar a sua criação de porcos, tinha, abrigadas da neve, três ovelhas.

Sempre comunicativo e afável, deixou-as andar um pouco no manto de brancura para eu as fotografar. A bruma e a neve propiciavam um ambiente de grande beleza, saciando os sentidos e deixando a alma radiante de alegria.


Além de animais também tem um viveiro de castanheiros. No ano anterior, quando andei a plantá-los, fui ter com ele para me vender alguns mas já os tinha prometido a alguém.


O senhor Modesto, dizia a minha sogra, ajudou-a algumas vezes, trazendo-lhe medicamentos de Chaves e a pensão da guarda-fiscal.


Ovelha à procura do pasto que não encontra.


Mas a ocupação principal deste vizinho é a sua diversificada criação de porcos, resultante de cruzamento de porco-bravo com pata negra e bísaro.


Num dos armazéns, alem de alfaias agrícolas, lenha e fardos de palha, tem abundante reserva de alimentos para os recos.


Rabas grandes ...


e abóboras...


...alimentam as cevas que hão de transformar-se em presuntos, salpicões e noutro fumeiro, apreciado por amantes da boa cozinha tradicional transmontana.


A rainha da pocilga...


Porca de raça preta com as crias nascidas dez dias antes.


Os requinhos procuram ficar debaixo da lâmpada emissora de calor para se protegerem do intenso frio. São o orgulho do dono.


Segundo o senhor Modesto, os suinos são cruzamento de javali com porcos de raças negra e bísara, os mais afamados para fabrico de fumeiro de superior qualidade.


Se tivesse tido disponibilidade, mais haveria a descobrir nesta abastada casa de lavoura, à conversa com o senhor Modesto, aproveitando a oportunidade que me deu de entrar na sua exploração agrícola. Ficou o amargo de boca de não ter presenciado a matança das suas cevas, no final do ano e em janeiro.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Matança do Reco

A tradição ainda é o que era


“Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã, a paz de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe do silêncio. Dias depois desmancha-se a bizarma e um pálio de fumeiro cobre a lareira”Miguel Torga - in “Portugal”, Coimbra 1950
Seis décadas depois De Miguel Torga ter escrito a obra "Portugal" a tradição da matança, sobre a qual paira o cutelo da ASAE, permanece viva em Trás-os-Montes. O ritual é o mesmo em todas as aldeias. Na Capital da Batata só não se mata o reco nas casas de quem não tem forças para fazer o fumeiro. Mesmo com o envelhecimento e a diminuição da população, calcula-se que por esta altura se matem umas quarenta cevas, metade do que era habitual.

O meu vizinho Tó matou ontem dois recos. Outros vizinhos fazem igual, matam dois ou mais. São poucos os que matam apenas um.


“O porco, criado e cevado com desvelos de que gozam poucos humanos, lá está a sangrar no banco do sacrifício. Berra que espanta a penumbra da madrugada, mas o seu sofrimento não encontra eco nos ouvidos de ninguém. Quanto mais barulhenta for a agonia, mais escoado ficará o seu corpo no chambaril."
Miguel Torga

Quando cheguei para assistir à matança já o primeiro porco estava a cuincar, ferido no coração pela faca certeira do matador.



Os dois bácoros, depois de mortos, foram levados de tractor para - junto da casa do Tó - serem chamuscados, lavados e abertos a fim de se lhes tirarem as entranhas.



Comprados na Galiza em Setembro, já capados, pesam, cada um, à volta de 130 kg. Durante a engorda foram alimentados com couves, batatas e abóboras. Bem feitas as contas fica cara a alimentação das cevas. O que vale é as pessoas terem hortas!



Chamuscando com maçaricoPara chamuscar o porco - queima dos pelos e da fina camada de pele sobre o couro - usa-se uma botija de gás e um maçarico em vez da tradicional palha de centeio. Como nas ceifas se enfarda logo a palha esta já nem existe e o uso do maçarico torna a tarefa de chamuscar mais fácil e rápida.



Desde criança que não via uma matança do reco. Causou-me, por isso, alguma estranheza, ver a pele do animal ser raspada com enxada.



Mas a raspagem com a enxada tem vantagens. Como o fogo é intenso, o cabo comprido salvaguarda de eventuais queimaduras quem tem que raspar a pele antes que o couro arrefeça.


































"Impressionou-me sempre na vida aldeã este cerimonial doméstico, que acaba por deixar um morto de pernas para o ar, pendurado na trave da casa. Na manjedoira vai nascer o Salvador; à lareira vai-se juntar a família; e à entrada da porta simbólica renovação do Ano Novo, o espantalho do cadáver que há-de alimentar o futuro!”
Miguel Torga


O goberno da casa
A carne de porco é o alimento de todo o ano.




Lavar e tirar excesso de sangue
As carnes de órgãos vitais são consumidas de imediato. O fígado pode ser assado no espeto e temperado com azeite; pode ser estofado no tacho e frito, em iscas. O coração come-se cozido ou frito. Do bofe fazem-se as bocheiras.



Enxugar
O desmanche do porco, para dar tempo do sangue escorrer, a carne arrefecer e enrijar com o frio, ficou para hoje, um dia depois da matança. No desmanche separam-se as carnes para o fumeiro, daqui a uma semana. Os presuntos e as orelhas vão para a salgadeira durante vinte dias, embora haja quem os ponha na arca frigorífica.