13-11-1934
Capital da Batata
Um
filme francês, Les Lavandières du Portugal, realizado em 1957, para
publicitar uma nova máquina de lavar roupa, retrata um Portugal rural,
de lavadeiras do rio.
No filme, agentes de empresas concorrentes, procuram convencer uma lavadeira de rio para ir a Paris publicitar a lavagem da roupa numa moderna máquina de lavar.
Em Travancas, porém, aldeia sem eletricidade até aos anos 70 do século passado,
as máquinas de lavar roupa só chegaram há menos de 50 anos.
Até então, a lavagem de roupa continuou a ser feita à mão. Em tempos
mais recuados, numa poça do Cavanco, em frente à Bica do Rigueiro.
No século XXI, apesar de já haver água canalizada ao domicilio; apesar de estar generalizado o uso de máquinas de lavar roupa, há mulheres raianas que não perdem hábitos ancestrais das lavadeiras de rio e continuem, esporadicamente, a lavar no lavadouro público ou em tanques privativos porque na aldeia não há rio.
Lavadeira de rio, transmontana
Povo que lavas no rio
Que talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não
Grupos de senhoras de São Cornélio, Argemil e Travancas têm o hábito salutar de caminhar ao longo da estrada que une as aldeias do planalto à Bulideira.
No entanto, há percursos, como os que outrora partiam de Argemil e Travancas para Palheiros, e de lá para Arçádegos, que pela beleza paisagística, património edificado, histórias de contrabando e de emigração a salto, merecem ser redescobertos.
Acedendo ao convite da filha, de irmos a Palheiros, a pé, assumi o papel de guia. Partimos do cruzeiro de S.Tiago, em direção à Fonte Fria, indo pelo caminho que fazem os pastores, ao anoitecer, de regresso a Argemil.
Sempre a subir, passámos por alguns soutos, harmoniosamente plantados...
... e searas de centeio. Vistas largas, paisagem deslumbrante.
Altaneiro, o posto de vigia florestal servia de bússula. Todavia, de pouco nos valeu, porque o caminho tomado na bifurcação desembocou na estrada alcatroada, um pouco abaixo do Vale da Preta.
No Vale da Preta seguimos pelo estradão que desce para a Fonte Salgueiro. Trajeto acolhedor, bordejado por carvalheiras.
Rigueiro de Palheiros, Nascido a umas centenas de metros acima, na Cota de Mairos, ainda leva pouca auga. No tratado de demarcação de fronteiras, em 1864, ficou a servir de linha divisória, entre os reinos de Portugal e Espanha.
Do lameiro e da seara para baixo, até às ruínas, a encosta é íngreme; A calheia da Faceira e o trilho, outrora também percorridos por contrabandistas, estão cobertos por giestas e vegetação espessa.
Para adeptos de caminhadas lúdicas, e para bem da preservação da memória coletiva da gente raiana, torna-se urgente a sua limpeza e sinalética.
Relativamente à primeira visita que fiz a Palheiros, de descoberta das ruínas em 2014, noto uma progressão do matagal, na área das casas esborralhdas. Impossível chegar ao marco 271!
Palheiros, no termo de Argemil, apesar de ter pertencido a Portugal desde o Condado Portucalense, tal como Arçádegos e outras aldeias galegas da raia, em 1641 era uma aldeia habitada por galegos.
Nas guerras da Restauração, 1640-1668, foi incendiada, entre outras, por militares do castelo de Monforte de Rio Livre, em represália por os espanhóis terem saqueado e incendiado Travancas, Argemil e São Vicente.
Tinha 60 casas colmeadas. Os seus moradores fugiram e nunca mais regressaram, mesmo após a assinatura do Tratado de Paz, pelo qual a Espanha reconhecia a Restauração da Independência de Portugal.
Finda a visita às ruínas, fizemos o caminho inverso. Subimos a encosta por uma vreia que ladeia os lameiros. Paisagem bucólica de onde não havia pressa em sair.
Já quase no alto da encosta, a vista alargou-se para poente e vimos à nossa frente o marco da Cota, território espanhol, e os três aerogeradores portugueses do Vale Grande.
Descida para a Fonte Fria, local onde se construiu o primitivo quartel da guarda-fiscal de Travancas. A mudança para a aldeia fez-se. porque os guardas se queixavam do isolamento e do frio.
Caminhada, sob sol ardente, quase a terminar. Embora não tenha medido distâncias nem contado o tempo, calculo que em cada sentido, andando devagar, tenhamos demorado cerca de uma hora.
Travancas à vista. Castanheiros do Vale da Bouça e últimas casas da aldeia, na estrada que vai para a fronteira.
Foi uma caminhada revigorante. Lenitivo para desbravar, entre outros, o Caminho do Abade de Baçal entre Travancas e Mairos.
Partiu para o Pai
Realizou-se hoje o funeral do senhor Antonio Maldonado, abastado agricultor de Travancas, falecido no lar de Chaves, onde vivia, desde há uns anos.
Antonio de Paiva Maldonado
97 anos
Na sua longa vida, devido ao poder económico e social que lhe advinha de ser empregador, marcou a vida de várias gerações.
Democrata, acolheu oposicionistas fugidos ao Salazarismo e ao Franquismo.
Nas décadas que antecederam a abolição de fronteiras, foi personagem central da Rota do Contrabando que passava por Travancas mas cuja história está por escrever.
Lamento não ter feito o registo do seu testemunho.
Ao Zé Maldonado e à restante família enlutada deixo sentidos pêsames.
Honestidade intelectual
Imagens e textos sujeitos a direitos de autor. Para uso de cópias, as pessoas de bem, dotadas de sentido ético, devem contactar o responsável do blogue.