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quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Última viagem do Chico

  Emigrante no Brasil

Travancas perdeu um benfeitor, filho da terra e self made man em terras brasileiras.

13-11-1934
09-08-2020


 Vapor North King no Funchal

Chico, de nome Francisco Preto Ribeiro, emigrou para São Paulo em 1952, aos 18 anos incompletos, embarcando no barco a vapor North King, com destino a Santos, o maior porto do Brasil. Nos 18 dias que demorou a travessia do Atlântico teve a companhia de Carminda e de dois irmãos, filhos da senhora Lucília, de Mairos.
 
Uma vizinha, criança na altura da sua partida, ainda se recorda de ver a senhora Claudina abraçada ao filho, a chorar e a limpar as lágrimas ao avental. 



Casa - assinalada por uma seta - onde nasceu e foi criado, no Bairro Além do Rigueiro,  num dia de grande nevada em 1963.  
(Um aparte, hoje só há um bebé no bairro e mais nenhuma criança em toda a aldeia!)

 

 

Para uma família de sete filhos, três dos quais foram para o Brasil, era uma casa pequena, igual a outras da aldeia, feitas em granito e telha-vã; casas sem água canalizada, esgotos, casa de banho e energia elétrica.

 
 

Quinteiro e entrada, em 2020, para  a casa natal, desabitada desde a morte da mãe. 
 
Com a emigração de famílias inteiras para o Brasil, e a partir da década de 60 para a Europa, as casas esvaziaram-se de gente. 
No bairro, contudo, foram reconstruídas as que continuaram a servir de habitação,

 


A lareira da casa paterna, praticamente como era quando nela se aquecia nas invernias. É acesa por altura das matanças, para curar o saboroso fumeiro feito pela cunhada. 
 
 
 
Chico e Carminda, depois de terem viajado no mesmo barco a vapor, namoraram e casaram em São Paulo. Do matrimonio nasceram duas filhas e um filho, falecido aos 18 anos, no embate da motocicleta  nas traseiras de um camião.
 
 
 
 
Ao contrário de muitos emigrantes transmontanos, analfabetos, Chico tinha a quarta classe, feita na escola velha, sita na Rua do Sol, mas demolida para dar lugar à escola nova, e na qual, posteriormente, esteve instalada a  Junta de Freguesia, até data recente. 
 
 
 
 
Dentre os valores que lhe foram incutidos na escola primária, o amor à família e à terra mater, marcaram  a sua postura de homem solidário para com aqueles que nunca deixaram de lhe estar afetivamente próximos, mesmo tendo o oceano a separá-los.  

 
 
No seu sítio, em São Paulo, convivia com os amigos portugueses e familiares; e nas viagens ao torrão natal, visitava-os. 
 
O apego às raízes era tão forte que  o tojo, a urze e a giesta transmontanas, levados em sementes pela esposa, marcavam presença no jardim da sua quinta paulista.
 
 

A sua instrução elementar,  inteligência,  capacidade de iniciativa  e perseverança, terão contribuído para se tornar num emigrante bem sucedido profissionalmente.
 
 
 
 
Em São Paulo, a maior metrópole da América Latina, antes de fazer o seu primeiro negócio, a compra de um talho, começou por trabalhar na restauração, na distribuição e venda de carne, subindo depois outros degraus...
 
 
 
 
  ... até chegar a ser fazendeiro no Paraguai e no Pantanal do Estado de Mato Grosso, propriedades para onde se deslocava em avião a jato. 
 
Nos mais de 73 000  hectares  de mato e  pastagens da Fazenda São Francisco, a menina dos seus olhos, criava um rebanho, de centenas de cabeças de gado  bovino, para produção de carne.
 



 
Além de criador de gado zebu, fazia o abate em instalações próprias, automatizadas, e controlava  o circuito de distribuição.   




Neste percurso de self made man  nem tudo foram rosas... 
 
 

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor. 
 Fernando Pessoa
 

 
Qual fénix renascida das cinzas, sobreviveu  ao sofrimento causado pela trágica perda do filho, numa noite de Natal,  e ao incêndio que consumiu milhares de hectares da Fazenda de São Francisco.

 



No casamento de Elisa, irmã mais nova, a quem mandou carta de chamada. Amigo da família, a todos ajudou, pais e irmãos, para emigrarem ou irem de visita ao Brasil.
 
 
 
 
A solidariedade  não se confinava ao círculo familiar. Mordomo do Senhor dos Aflitos  fala do elevado valor do seu donativo para a festa, todos os anos,
 


 
O senhor Padre Delmino corrobora a oferta para a festa e recorda o generoso contributo para o Lar da Terceira Idade e para a eletrificação do caminho do santuário que, em sua homenagem, passou a ser designado pelo seu nome.
 
 
 
As  placas sinaléticas mais antigas denominam "Av. Francisco Preto Ribeiro" o caminho que vai de Travancas à capela do Senhor dos Aflitos.  A placa mais recente, porém, chama-lhe "Rua Senhor dos Aflitos",
A situação anómala, da mesma via ter dois nomes, causa perplexidade a qualquer observador externo, desconhecedor dos meandros da história local.  
 
 
 
 
 
Em Mairos, terra natal da esposa,  a rua junto ao cemitério chama-se Carminda Ribeiro, em sinal de reconhecimento pelo donativo para pavimentação do caminho que vai para a capela de S. Tiago.
 
 
 
 


Oferta do pavimento do adro
Dr. Francisco Ribeiro
 
O Chico, sem diploma de doutor mas homem simples e generoso, não carece de título para ser merecedor de  reconhecimento público. 
O epíteto, longe de o enaltecer, dá aso ao comentário jocoso "Doutor da mula ruça". 
Se era intenção vincar agradecimento pela oferta,  mais valera, em nome da verdade e sem adulação, inscrever na placa:
 
Oferta do pavimento do adro
Senhor Francisco Ribeiro
Emigrante no Brasil 
 
Permanecia a respeitosa homenagem ao filho emigrante e, indiretamente,  à memória dos demais  que, ano após ano, de forma anónima, contribuem para o progresso da terra natal.




Chico não chegou a ver, no terreiro anexo à capela, a pia batismal onde foi batizado, substituída na igreja paroquial por outra.
 
Está situada a um canto, próximo do bar da comissão de festas, como se fosse velharia, a servir de mesa onde se tomam uns copos.
 
A pia, pela sua carga simbólica e ser património histórico-religioso, numa função nova, de floreira ornamental do espaço envolvente, se fosse deslocada para perto da capela, ganharia projeção e valorizava a estética do conjunto. 



Unidos, Francisco e Carminda, até que a morte da esposa os separou.



Mimosas amarelas, símbolo esotérico de vida eterna
 
Chico, como as sementes deitadas à terra, morreu aos 85 anos, para renascer numa nova vida. A sua caminhada terrestre terminou em Terras de Vera Cruz, para onde embarcou, rapaz sonhador, em busca do eldorado.  
 
O seu corpo jaz longe do torrão natal, mas a sua obra fica, a dar testemunho da sua passagem pelas terras raianas. 



Os sinos da igreja paroquial onde foi batizado choraram de tristeza, ao anunciarem a sua última partida, uma viagem sem retorno. 
 
Familiares, amigos e povo anónimo encheram  a igreja de São Bartolomeu para  a Missa de Requiem em sua homenagem.
 
Até sempre Chico!

 
Post Scriptum
Um agradecimento à Dona Teresa, irmã do  Chico, pelas fotos cedidas, para digitalização



quinta-feira, 1 de maio de 2014

Emigrante na reforma

Reencontro em Argemil

Este senhor, tio do Amaral, chama-se Artur. Vive em Argemil, reformado por invalidez. Em França, para onde emigrou em 1970, trabalhou trinta anos. Foi lá que o conheci,  numa empresa de transporte de mercadorias, onde eu trabalhava umas horas, para juntar aos francos da bolsa  de estudos que o governo francês me concedia.



Era um homem reservado, pouco conversador, ao contrário de outros portugueses que trabalhavam "chez Malissard". Passados estes anos todos, vi-o na igreja de São Miguel Arcanjo, na missa de corpo presente do António pastor. Não me reconheceu mas confirmou ter trabalhado como "rouleur" na empresa onde eu, por saber falar e escrever em francês, fazia a conferência dos "bordereaux".



No dia 25 de Abril de 2014, fui a sua casa, no fundo do povo, 40 anos depois de nos termos conhecido. Enquanto me recordo de ter sido o Ribeiro - amigo até hoje - a  dar-me a notícia da Revolução em Lisboa, liderada pelo general Spínola, o senhor Artur não tem qualquer memória do dia 25 de Abril de 1974.



A ida a sua casa, para beber um copo, já estava apalavrada, desde o verão passado. Encontrei-o sozinho, à lareira, com um borralho de fazer inveja.



Sentado no escano, acedeu falar de si.  Antes de ir para França esteve quatro anos em Espanha, perto da fronteira com Melgaço. Na época, embora casado, as contingências da vida levaram-no a deixar a mulher em Argemil e partir, como tantos outros raianos, para franças e araganças. "Primeiro habitei em barracas do patrão", na região de Paris.




Desde que se reformou, por problemas no pé, reparte o seu tempo entre Argemil e França. Vem para a aldeia, "porque é a terra de cada um". No verão, costuma ir ao café, para conviver com os amigos. Em França, mora num apartamento,  com um dos filhos do segundo casamento. Ao todo tem cinco  e vários netos, espalhados por Setubal, França e Itália.



Vinho, chouriço e pão, à boa maneira da hospitalidade tansmontana.


"Agora vou mostrar-lhe a minha fazenda". E mostrou, não apenas o linhar anexo à casa como, graças a ele, aprendi que a deliciosa expressão "fazenda", levada pelos colonizadores para o Brasil e caída em desuso no Portuigal moderno, se mantém preservada no nosso Trás-os-Montes profundo.



Diz-me que "aqui é melhor que em França: os ares, a comida..." e que "aqui tenho tudo: batata, feijão, couves, verdura..." Todavia, em França estão os familiares que não voltam para a terra dos pais...



Senhor Artur, uma vida feita de partidas e regressos, igual à de tantos emigrantes.



sábado, 25 de janeiro de 2014

Sonho americano

Música de Joe Dassin, versão francesa de Yellow River


Este motociclista é um filho de Travancas, da família dos Melo. Tem passaporte português e...  coração americano!




Mes amis, je dois m´en aller
Je n´ai plus qu´à jeter mes clés
Car elle m´attend depuis que je suis né
L´Amérique

J´abandonne sur mon chemin
Tant de choses que j´aimais bien
Cela commence par un peu de chagrin
L´Amérique




Denis emigrou para os Estados Unidos, depois de ter estado em França. Na terra de sonho, a sua grande paixão são as Harley. Com os amigos percorreu,  na sua motocicleta, os estados da Carolina do Norte, Carolina do Sul, Virginia, Kentucky, Pensilvania, Vermont,  Massachussets, Tennesse, Geórgia, Delaware, Nova Hampshire e o Canadá.




Mes amis, je vous dis adieu
Je devrais vous pleurer un peu
Pardonnez-moi si je n´ai dans mes yeux
Que l´Amérique

Je reviendrai je ne sais pas quand
Cousu d´or et brodé d´argent
Ou sans un sou, mais plus riche qu´avant
De l´Amérique




















L´Amérique, l´Amérique, je veux l´avoir et je l´aurai
L´Amérique, l´Amérique, si c´est un rêve, je le saurai

Tous les sifflets des trains, toutes les sirènes des bateaux
M´ont chanté cent fois la chanson de l´Eldorado
De l´Amérique






A casa  do emigrante motociclista  na cidade de Bridgeport, Connecticut, Estados Unidos.  Uma típica casa americana, sem muros a separá-la da rua!



Nevada de 09-02-2013

Bridgeport, situada 100 km a norte de Nova Iorque, é um cidade de invernos rigorosos, onde a neve, por vezes, chega a ter dezenas de centímetros de altura. As nevadas de Travancas, em comparação, são suaves; enchem o olho sem causar transtornos à mobilidade de pessoas e bens.




L´Amérique, l´Amérique, si c´est un rêve, je rêverai
L´Amérique, l´Amérique, si c´est un rêve, je veux rêver
A América, a América, se é um sonho,  eu sonharei
A América, a América, se é um sonho,  eu quero sonhar





Denis, exceto a letra da música, da versão francesa de Yellow River, a informção e as fotos foram tiradas do teu blogue Travancas Native. Espero que te sintas tão bem em Travancas da Raia como eu gosto de te ter cá, até porque tu próprio és Travancas... na diáspora!


A propósito, fica o convite aos emigrantes, visitantes do blogue, para colaborarem em postagens, dando visibilidade a quem está longe dos olhos, perto do coração!

EUA - Costa Leste - White Plains, Mount Vernon, Kennesaw ...
Brasil  - Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo...
Bélgica - Flandres,  Hainaut, Bruxelas...
Suiça - Genebra,  Valais, Zurique, Friburgo, Graubunden...
Espanha - País Basco, Catalunha, Galiza, Valladolid, Madrid...
Andorra
Alemanha
França - Região de Paris, Alsácia ...  Salut Erstein!






sábado, 7 de setembro de 2013

Emigrantes com Portugal no Coração

 
 
As nossas aldeias já se esvaziaram. Os filhos da terra,  quais aves migratórias, gozadas as férias, regressaram às  cidades do litoral, aos Estados Unidos, à  Bélgica, Suíça, Espanha, França e a outros recantos do mundo, para onde foram à procura de uma vida melhor.
 
 

 
 
Longe da pátria, perto dela no coração! No estrangeiro, autocolantes nos carros e medalhas de ouro  ao pescoço, com o emblema da seleção das cinco quinas, são exemplos da forte ligação afetiva dos emigrantes a Portugal.
 



 Menino, sabes  o que é a pátria?
 
Mas, tal como o passarinho volta ao ninho, o emigrante, periodicamente, volta à pátria, ao rincão de origem, por mais humilde que seja.  O seu patriotismo manifesta-se no amor à bandeira nacional, hasteada em casa. No livro da terceira classe, a geração com mais de 50 anos, aprendeu e nunca esquece que:

"A pátria é a terra em que nascemos, a terra em que nasceram os nossos pais e muitas gerações de portugueses como nós".
 
 

 
Que:
"Na Pátria está, meu menino,  a casa em que vieste à luz do dia, o regaço materno que tanta vez te embalou, a aldeia ou a cidade em que tu cresceste, a escola onde melhor te ensinam a conhecê-la e a amá-la, e a família e as pessoas que te rodeiam."
 
 


 
E a lição de patriotismo terminava assim:

É nossa Pátria bendita todo o território em que, à sombra da nossa bandeira, se diz, na formosa língua portuguesa, a doce palavra Mãe!

Mais que outros portugueses, os emigrantes sentem a pátria no coração.
 
Até à volta!
See you soon!
À bientôt!
Hasta la vista!
 
 


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Carta de emigrante a um amigo

Ambos residentes no Rio de Janeiro


Sr. Gonçalves, de Travancas, destinatário da missiva.



Descobri esta carta, datada de 1938, dentro de uma mala que veio do Brasil, no porão de um vapor, há setenta anos.  Pelo conteúdo e pelo carimbo 'Aberta pela censura' , é uma relíquia,  digna de ir parar a um museu!

Alguém, em Travancas, sabe hoje  que, na época, o Brasil era governado por um ditador? Chamava-se Getúlio Vargas. Tomou o poder  após um golpe de estado que impediu Júlio  Prestes, presidente democraticamente eleito, de tomar posse, e instituiu um 'Estado Novo' que durou de 1938 a 1945.


Confeitaria Colombo
Rio / 14 / 8 / 1938
Amigo Snr. Gonçalves

Saude é u cuanto lhe dezeijo na companhia
da sua Sinhôra e na companhia de sua Filha,
Pois eu fico de saúde graças a Deus, Snr. Gonçalves



Tenho-lhe a dizer que queria ir ahi a sua caza
Fazer-lhe uma Vizita no dia 11 de Setembro
que é no Dumingo, mas pedia-lhe o favor de vêr
Se nesse dia u meu amigo me a Ranjava a vir ahi
essas duas môssas que é uma de Travancas e a outra de
Argemil que é môssa que foi do Snr D de
Argemil e a outra a filha do A



o Snr falar com elas para elas elas vir ahi
Cumo lhe digo no dia 11 de Setembro que eu
dezijava estar cum elas ambas ahi em sua caza
que se elas ahi viessem nêsse dia eu então iria
mais Prevenido com uns dossinhos da Confeitaria
Colombo,


Veija se as pode ahi têr nesse dia que
eu tinha muito gosto de estar Com elas ahi em
Sua Caza num lhe pode dizer que é u
Jenro do Snr. P de Argemil que quer estar
Cum elas. Pesso-lhe esse favor, que eu sempre
ahi vou à mesma no dia 11 de
Setembro Se Deus Cuizer porque não
posso ir Primeiro,


A luxuosa Confeitaria Colombo, em cuja cozinha trabalhava o autor da carta, foi fundada em 1894 por emigrantes portugueses. Decorada com vitrais de Antuérpia, ao estilo da Belle Epoque, faz parte do património cultural e artístico do Rio de Janeiro e está incluida nos roteiros turísticos da Cidade Maravilhosa.


fica para o dia 11 como
lhe digo pode Contar Cumigo se Deus
quizer, mas não se esquessa de vêr se mas
pode trazer ahi êssas duas garotas como se
diz aqui no Rio, deicheme assim dizer.


Pesso u favôr de me esqurevêr cuando puder
e me diga se elas veem ou não que daqui
até lá u Snr. tem muito tempo de falar
com elas. Não se esquessa de me esqurevêr ou
pode até telefonar. Com isto pessu-lhe desculpa
pelo estar a incumudar. muitas Lembranças para
Sua Sinhôra egualmente para sua Filha e u Snr. de mim
asseite um apêrto de mão deste seu amigo Pinto


Minha direção
A T F Pinto
Rua 7 de Setembro nº 94
Confeitaria Colombo
Fone 22-7650


Se u snr quizer telefonar a dizerme se elas ahi vem, primeiro
u Snr pede para chamar u Snr Pinto da Cusinha, mas se elas
puder vir ahi, primeiro u Snr.
me da Resposta no dia em
que elas veem, espero sua resposta
Snr. Pinto