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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Dia de São Bartolomeu

O diabo à solta

"Pronto, vamos lá à missinha ouvir a história do outro sentado debaixo da figueira"
É assim que a minha mulher se recorda de ouvir dizer o pai  às filhas, no seu jeito de bom homem brincalhão, quando se preparavam para ir à missa, no dia de São Bartolomeu, em 24 de agosto.


A referência ao outro, "sentado debaixo da figueira", era a São Bartolomeu,  um dos doze apóstolos,  natural da Galileia, também conhecido pelo nome de Natanael. Assim o designou São João, no seu evangelho, versículo 1, 45-51. Quando Filipe foi chamá-lo à figueira, para o apresentar a Jesus, e quando ambos caminhavam em Sua direção, Ele disse a Natanael: «Aí vem um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento». Disse-lhe Natanael: «Donde me conheces?» Respondeu-lhe Jesus: «Antes de Filipe te chamar, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira!» Respondeu Natanael: «Rabi, Tu és o Filho de Deus! Tu és o Rei de Israel!» Retorquiu-lhe Jesus: «Tu crês por Eu te ter dito: 'Vi-te debaixo da figueira'? Hás-de ver coisas maiores do que estas!»



São Bartolomeu, fundador da Igreja arménia, segundo uma lenda local, esteve na Índia a pregar o evangelho, antes de se instalar na Arménia Maior. Os arménios acreditam que São Bartolomeu expulsou o diabo do corpo de uma filha do rei Polímio, curando-a e aprisionando o demónio com correntes. Agradecido, o rei converteu-se ao cristianismo. No entanto, a conversão do rei, de sua esposa e de doze cidades, provocaram inveja a Astiago, irmão do rei e sibilo (bruxo) de um oráculo de culto ao diabo, existente na região. Astiago  e outros sacerdotes pagãos, temerosos  do poder do apóstolo, procederam ao seu martírio, conseguindo obter ordem para, no dia 24 de agosto,  esfolá-lo vivo e crucificá-lo com a cabeça para baixo, no porto de Albanopolis, Mar Cáspio, (cidade atualmente associada a Derbent, na Rússia, ou a Baku, no Azerbeijão). Porém, o apóstolo, embora sofrendo terríveis dores, não se calou, continuando a glorificar o Senhor. Como não morresse com a crueldade, Astiago mandou cortar-lhe a cabeça e escapelizá-la. Só então os lábios do discípulo de Jesus se calaram.


A crença popular diz que no dia de São Bartolomeu, único dos apóstolos com poder de dominar o "moço", o diabo (o mal) anda solto pela Terra, fazendo malvadezas. Em muitas povoações acredita-se que o santo, (o bem) uma vez por ano, temeroso de uma revolta de Lucifer, acorrentado o ano todo, ou segundo outra versão, num ato de clemência, solta o demo no dia 24 de agosto.

Dia aziago
O 24 de agosto é um dia azarento. A crendice popular diz que não se deve trabahar demasiado neste dia, para evitar acidentes. Associado ao dia do santo padroeiro de Travancas, encontramos na história europeia, o célebre Massacre da Noite de São Bartolomeu, ocorrido em França na noite de 24 para 25 de agosto de 1572.  Nessa noite teve início em Paris o assassínio de milhares de protestantes huguenotes, opositores da casa real francesa, católica. Habituados ao multiculturalismo dos tempos atuais, nem sempre nos lembramos que o fanatismo religioso esteve na origem de guerras religiosas que assolaram a Europa.



Devido ao seu martírio, São Bartolomeu é o padroeiro daqueles que trabalham em peles: curtidores, sapateiros, etc. É o protetor da aldeia. Todos os anos, a 24 de agosto, se celebra missa na igreja matriz, em sua honra. Dada a proximidade com a festa do Senhor dos Aflitos, os festejos  laicos não são exuberantes. No entanto, no largo de São Bartolomeu, sala de visitas da aldeia, sempre há música e arraial. Este ano não foi exceção!



Como é da tradição, o andor de São Bartolomeu é levado em procissão pelas ruas da aldeia.


Percorrem-se  algumas das ruas a rezar.

E por fim,  em sentido contrário ao ponteiro dos relógios, dá-se uma volta à igreja de São Bartolomeu, onde se dão por concluídos os festejos religiosos. Almoço de cordeiro assado e batatas a murro  servem de repasto ao convívio de famíliares e amigos. À noite é que é, bailando, velhos e novos,  ao som do popular  Baile de Verão - "aperta aperta com ela" - e de outras brejeirices.

Nota: Fotos de arquivo



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Santos de Travancas vão à cidade


Andores de São  Bartolomeu e São Cornélio participaram na procissão em honra  de Nossa Senhora das Graças, em Chaves, dia 19 de Setembro de 2010.







Quando o senhor padre perguntou na missa, se já tinham pensado nos andores, uma voz feminina respondeu-lhe, de imediato, que "De São Cornélio vai um"! Desconheço o que se passou posteriormente. Na procissão estiveram os andores de São Cornélio, padroeiro da aldeia com o mesmo nome, e o de São Bartolomeu, padroeiro da freguesia de Travancas.



Desde 2005 que, depois de uma interrupção superior a meio século, se organizam festejos em Chaves, em honra de Nossa Senhora das Graças, padroeira da paróquia de Santa Maria Maior. A participação dos padroeiros das paróquias do concelho é o objetivo dos organizadores.




Celebração da eucaristia no Jardim Público, domingo à tarde. À mesma hora,  outros escolhiam o lugar onde ficar, para ver passar a procissão.



E ali ao lado, um grupo de amigos jogava às cartas, indiferente à cerimónia religiosa.



Seis bandas de música abrilhantaram a festa.




A procissão saiu do Jardim Público, passou pela Madalena e dirigiu-se para a Ponte Romana



No São Tiago vai à vinha e encontras bago! - disse-me o senhor Abílio Rodrigues, de Tronco, para justificar a existência do cacho de uvas. na mão do santo. Nunca vi uma procissão com tantos andores. No entanto ouvi dizer que em 2009 havia para cima de oitenta. enquanto este ano seriam apenas quarenta e seis.


Padroeiro da freguesia de São Bartolomeu de Travancas, acompanhado por fieis das aldeias de Argemil e Travancas.



Residentes e naturais de São Cornélio, na companhia do padroeiro da aldeia.



O termo da procissão foi a igreja matriz de Chaves, ao lado da qual se realizou a cerimónia de encerramento.


Oito militares do Regimento de Infantaria de Chaves - RI 19, carregaram o andor de Nossa Senhora das Brotas, cuja capela está no largo da antiga prisão, no Forte de São Neutel.


Até hoje,  via São Bartolomeu como padroeiro de Travancas; São Miguel, de Argemil; São Cornélio, como patrono da aldeia que leva o seu nome e Nosso Senhor dos Aflitos, como padroeiro da freguesia. Essa visão, aprendi agora, não é correta!



Sendo São Bartolomeu o padroeiro da freguesia, entendo o motivo pelo qual os de Argemil estiveram com os de Travancas a acompanhar o andor.



Irmanados na fé, separados na ação! São Cornélio, levando o seu próprio andor, demarca terreno e autonomiza-se  relativamente à sede da freguesia. A aldeia cresceu muito em número de casas. Já antes, há uns vinte anos atrás, ter cemitério e igreja nova foram sintomas da vontade, determinada,  da aldeia construir identidade própria.







Paroquianos de Travancas, em cima, e de São Cornélio, na foto de baixo, felizes na relação com o Senhor.










A mesma fé, as mesmas flores, diferentes na cor!



Para o ano, mercê de Nossa Senhora das Graças,  os  santos padroeiros descerão de novo a montanha e hinos de júbilo soarão  nos céus de Aquae Flaviae!





terça-feira, 20 de julho de 2010

Os de Travancas no São Gonçalo

Uma aventura de três festeiros


Era uma vez três senhores de Travancas que no dia 18 de julho quiseram ir à festa do São Gonçalo de Orjais, aldeia situada na vizinha freguesia de São Vicente da Raia. O santo, na realidade um beato dominicano que nunca chegou a ser canonizado, nasceu em 1187, em Vizela, e faleceu no dia 10 de janeiro de 1259, em Amarante, cidade em cujo mosteiro repousam os seus restos mortais. A festa, realizada, inicialmente, como a de todos os santos, no dia do falecimento, foi transferida de janeiro para julho, para que os emigrantes nela pudessem participar.


Os três festeiros - o Delmar, o Matias e eu próprio -  partiram do Café Central, pelas 15 horas, a fim de passar uma tarde bem passada no São Gonçalo, festa onde nenhum tinha estado antes. Desceram de Orjais até ao rio, pensando que iam ao encontro da festa, no fundo da ravina. O  caminho de terra batida, íngreme e inóspito, não lhes retirava o entusiasmo de saborear uma loura, no idílico vale da capela de São Gonçalo.



Mas foram dar a um ribeiro onde não havia vestígios de festa. Estavam perdidos! Na outra margem, sem viva alma, viram  uma casa em construção e um moínho a ser recuperado.  Souberam  mais tarde  que eram de um inspetor da polícia judiciária do Porto, que para ali vinha à caça e à pesca. O lugar chama-se Castelo de Pulo, bom para ser explorado por amantes da natureza.



Regressaram ao carro, atravessando o ribeiro com redobrado cuidado, para não escorregar nas pedras, polidas por milhares de enxurradas.


Matias e Delmar, com algum contorcionismo, conseguiram equilibrar-se e regressar enxutos.


De volta a Orjais, numa curva sinuosa e inclinada da encosta xistosa, a uns 500 metros da ribeira, o carro começou a derrapar no manto de pó e dali só saiu rebocado por um trator.  Dias antes, a outro carro perdido, aconteceu o mesmo! Evitar-se-iam alguns transtornos aos forasteiros que demandam o São Gonçalo, se a Junta de Freguesia de São Vicente da Raia colocasse, no cruzamento junto ao cemitério, uma tabuleta a indicar o caminho para a capela do santo!



Euroluso, habituado a não ter amor aos carros que lhe passam pelas mãos, de vez em quando mete-se por caminhos que não lembram ao diabo! Uma vez, no Douro vinhateiro, pertencente ao concelho de Carrazêda de Ansiães, mandou o filho descer do carro para tirar da rodeira os calhaus de xisto que iam surgindo à frente. Esta última aventura foi mais uma mas... para pior! Falta agora saber, se foi o calor do esforço do carro, que está na origem da inutilização da embreagem, no dia seguinte!



Sem cobertura de rede para pedir ajuda por telemóvel, coube aos companheiros de aventura vencerem, sob sol ardente, 400 metros de inclinação da encosta e percorrer uma distância superior a 3 km, para chegarem a Orjais e aí pedirem auxílio. A aldeia estava deserta! Os poucos moradores tinham ido para a festa! Levado por um carro que regressava de lá, o Matias foi até São Vicente da Raia, onde encontrou o dono do trator que veio rebocar o carro. Foram duas longas horas de espera! O que valeu foi ter uma garrafa de água, com que ia molhando a garganta, ressequida pelo calor. Chegados a Orjais, sãos e salvos, três horas depois de terem partido de Travancas, os três decidiram não prescindir de ir à festa! E toca a descer, por  outro caminho, até ao São Gonçalo!


Percorrendo alguns quilómetros, a descer a íngreme encosta, chega-se ao fundo de um vale frondoso e pujante de frescura, no qual sobressai uma modesta capela, caiada de branco.



Entrou-se, em vão, à procura da imagem do santo. No retábulo há uma pintura em madeira, em mau estado de conservação, e na base do altar-mor encontra-se uma inscrição de que apenas se decifra que "Esta ... a mandou fazer Antonio Glz (Gonçalves) de Sá ... Anno de 1803 ..."
Mas porquê existir uma capela num lugar ermo e tão distante? Conta-se que foi um barqueiro deste lugar, no Rio Mente - seria o tal António Gonçalves? - que a mandou construir, em cumprimento de promessa feita ao eremita São Gonçalves, por este o ter salvo das tentações do diabo. Reza a lenda que um dia, o barqueiro viu uma linda donzela mas quando se preparava para a possuir, olhou-lhe para as pernas e viu que tinha pés de cabra. Temeroso de que o diabo quisesse apoderar-se da sua alma, pediu a proteção do santo, que lhe concedeu a graça de o livrar das tentações da carne.


No lugar há varias casas pertencentes ao termo da freguesia de São Vicente e duas, do outro lado do Rio Mousse, afluente do Rio Mente,  pertencentes à Castanheira. Surpreendente, para quem desconhecia a grandiosidade da festa, a grande quantidade de carros, tratores e carrinhas  que desceram à ribeira, para a festa do santo.


Zaragata motivada pelo facto de um condutor não ter retirado o carro do caminho, para outros dois se irem embora. Não havia policia por perto. Depois de alguns empurrões, roupa rasgada e ameaça de navalhadas e bastonadas, tudo se resolveu sem ter havido murros e feridos.



Família de merendeiros no Rio Mousse. Eram várias as  mesas, montadas nas carrinhas e atrelados ao longo do rio, sem grande caudal, nesta época de estio.


No Rio Mente, mais caudaloso, tomava-se banho e gente das Terras de Lomba, Concelho de Vinhais, convivia elegremente. Dizem-me que, antigamente, até de Chaves vinham para aqui famílias inteiras e amigos fazer pique-nique.


Amigos a jogar aos matraquilhos.  Quem organizou a festa?  Mordomos de Parada da Castanheira, aldeia mais próxima, ou de Orjais?



No recinto, os três companheiros de aventura encontraram outros festeiros de Travancas, daqueles que gostam de percorrer todas as capelinhas.


Encontrar lá o senhor Modesto, de quem desconhecia a paixão por motos, foi uma agradável surpresa. Aparentemente bem integrado no meio, na sua companhia não me senti forasteiro na festa!


Mais abaixo, na confluência dos rios Mente e Mousse, foi montado um palco, à frente do qual  se desenrolou o bailarico, participado por muitos dos pares que não queriam perder uma moda.


Como é bonita, a dançar, esta nossa gente raiana!


Ó meu rico São Gonçalo
Casamenteiro das velhas
Porque não casas as novas
Que mal te fizeram elas?

A imagem de São Gonçalo foi retirada da capela e colocada em frente ao local do bailarico, para ser mais vista; assim sempre iam aumentando as ofertas ao santo casamenteiro, que nesse domínio rivaliza com Santo António.



Os senhores José Silvério e Xico Melo  à mesa com amigos. O antigo guarda-fiscal, excelente conhecedor dos caminhos do contrabando da zona, quis levar-me a conhecer a cascata que segundo ele, é muito bonita!. Agradeci mas ficou apalavrado que, oportunamente, voltaria ao São Gonçalo com ele, para conhecer o rico património paisagístico e cultural desta zona fronteiriça.



O senhor Modesto é uma caixinha de surpresas! Conseguiu que o tocador de acordeão, de que apenas fixei o primeiro nome, Fernando, fosse até uma casa junto à ribeira, tocar o instrumento, em exclusivo, para o blogue Travancas da Raia!


Apesar do tempo ter sido escasso a apreciar a exibição musical do Fernando Faiões, gostei dos excertos tocados e tive pena de não ter ficado para ouvi-lo tocar,  à noite, no palco.


Que os portugueses são cevadinhos, já se sabia! Que são amigos do tinto, também! Mas agora está-se a descobrir que também se alargam com as louras e vai daí,  quando não chegam para matar a sede a todos, toca a ir prós finos!


Mais dois de Travancas, amigos de festas, a quem foi impossível dizer não e botar mais uma!




Rica festa, no expressivo sorriso do Manuel e do Matias!

Preparem-se homens de Travancas, que as esposas já andam a confabular que para o ano querem ir juntas, mas sem os maridos, ao São Gonçalo de Orjais! E esta, hein?