domingo, 13 de dezembro de 2015

Choremos!

          Os  sinos dobram  por Francisco


Reflexões


"Quando morre um homem, morremos todos, 
pois somos parte da humanidade"





Lembra-te homem que és pó
e ao pó tornarás.
Génesis, 3:19




terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A matança do reco

                    Tradição que não morre 

Em dia de feriado, em honra da Imaculada Conceição, o senhor Eduardo não matou uma, nem duas, mas três grandes cevas.


Na matança dos porcos juntaram-se-lhe quatro vizinhos.

 Um deles, na transição para a adolescência foi assistente de matador.


Herdeiro de uma tradição que se perde no tempo, o matador, hoje, é ele!



A solidariedade nas relações de vizinhança da gente raiana, remontando a tempos que se perdem nas brumas do passado, ainda é o que era, um forte fator de coesão  social.



Assente na torna-jeira, a entre-ajuda, vinda do tempo em que a circulação de dinheiro era diminuta,  foi o sistema de organização do trabalho que as comunidades rurais criaram para sobreviver ao isolamento, à adversidade do relevo, do clima  e à escassez de recursos económico-naturais.



Às mulheres não está reservada a função de meras espectadoras  de um ritual em que o elemento masculino  é  o rei. 


No dia da matança as senhoras entram em ação, na coagulação do sangue;  na lavagem das tripas e na feitura da primeira refeição com carne da ceva. Dias depois, participam no desmanche do suíno e são elas a fazer o fumeiro, para goberno da casa ao longo do ano.



O ritual passa por quatro operações fundamentais: matar a marrã, chamuscá-la, lavá-la e abri.la, deixando-a a enrijar um dia ou dois, antes  do desmanche.


O feriado em honra da padroeira de Portugal, amanheceu com nevoeiro e  pluvioso. Às 8h30 o cuincar do primeiro reco ecoou pela aldeia. Seguiram-se os outros dois berrantes. Mas em Travancas há quem use pistola silenciadora.



Devido à chuva, os recos foram levados para  o interior do armazém, onde foram chamuscados e abertos.


A força necessária de vários homens para colocá-los no trator.



Antigamente chamuscava-se a pele do reco com palha de centeio ou carqueja.


Agora usa-se o maçarico a gás. Com ele torna-se mais fácil raspar a pele, com faca e sachola; limpar orelhas e arrancar as unhas.


A divisão do trabalho  - tarefas diferentes em simultâneo  - evidencia organização, fruto de experiência .



Lavagem e raspagem com pedra áspera.





Abrindo o reco, para retirar as miúdezas.


Da barriga fazem-se os rojões. Comidos à refeição, com grelos e batatas cozidas, ou com naco de pão, são sempre saborosos.







Tudo se aproveita para o fumeiro; até as tripas, depois de bem lavadas, para enchimento de alheiras, chouriças e salpicões.


Três horas depois, a matança dos recos chega ao fim. Dentro de dois dias faz-se o desmanche.


Satisfação, seguida  da festa da abundância, almoço no qual se comem os rojões e as primeiras carnes da marrã.  

Em conclusão, pelas terras da raia, a tradição ainda é quem mais ordena!


domingo, 29 de novembro de 2015

Já há grelos!

                         Nos linhares e na cozinha


Com alheira ou bacalhau 
Bem amargos e verdinhos 
Bela batata e azeite
Sabem tão bem os grelinhos!
                                               
                                                 Mariana

 
Eles aí estão, os nabos temporões! Semeados em agosto,  desde há duas semanas que estão a ser colhidos, para regalo da gente raiota.


Enviados por familiares, emigrantes em França e nas cidades do litoral de Portugal também os saboreiam, matando saudades à gastronomia da terra.


Grelos, sinal de inverno à porta.


domingo, 22 de novembro de 2015

Contrabando de porcos

Memória de sentença injusta


"Na noite de 4 de setembro de 1941, por volta da meia noite, a aldeia de Argemil da Raia, freguesia de Travancas, concelho de Chaves, foi palco de um escandaloso, violento e vil assalto à mão armada, perpetrado por dois elementos da Guarda-Fiscal do Posto de Travancas, concelho de Chaves".
  


(...) "fardados e bem armados, assaltaram a casa de meus pais, modestos agricultores, roubando pela força das armas, doze porcos (grandes e pequenos)".





É assim que Manuel Teixeira Batista, no livro Sentença Iníqua, escrito em 2011, inicia a  narração de "uma história triste e repugnante - mas verdadeira" relativa a acontecimentos, presenciados quando tinha 8 anos e que envolveram  o seu pai,  condenado em tribunal por contrabandear recos, de Portugal para Espanha.

 
Argemil, "nas décadas de 30, 40 e 50 do século XX era constituída, quase na totalidade, por um aglomerado de casas de granito envelhecido, de rés-do-chão e primeiro andar, casas que não proporcionavam  o conforto desejável aos seus habitantes, sobretudo nos rigorosos frios  de inverno"



"No Fundo do Povo havia duas casas cobertas de colmo, que as tornava mais quentes no inverno, Todavia o perigo de incêndio era grande. Aquando do ciclone de 15 de fevereiro de 1941, a forte ventania levou-lhes a cobertura..."


Há moradores que ainda se recordam dos fatos ocorridos há 74 anos.
Outros, mais jovens, conhecem a história e, sem questionar se os porcos iam ou não ilegalmente para Espanha, condenam o  procedimento dos dois guardas-fiscais: por invadirem o domicilio, durante a noite, sem mandato judicial...



 ...por mentiram, acusando o senhor Magno Batista de, ao cair da noite, no lugar de Cavancas, a 3 km de Argemil, se ter posto em fuga, dos guarda-fiscais, quando estaria prestes a passar, sem guia, para Espanha, três recos e nove  bácoros.



Altas horas da noite os guardas bateram à porta de Magno Batista, para que entregasse os recos. Escapou pelas traseiras, de nada lhe tendo valido ter tocado o sino da capela, a 100 metros de casa, para pedir aos vizinhos que acudissem, que lhe assaltavam a casa.


Com o repicar do sino e o latido dos cães, o Júlio e outros vizinhos acordam. A senhora Matilde, moradora na casa ao lado da capela, da sua janela vê os guardas-fiscais a levar os recos para o quartel. Temerosos, os vizinhos não se atrevem a opor-se aos guardas.




Foi por esta porta que os dois guardas-fiscais tocaram os porcos para  o quartel da Fonte Fria, demolido antes da construção do quartel novo de Travancas.                    

O senhor Magno não dormiu nessa noite. De manhã, montado na égua, saiu directo à fonte do Fundo do Povo, para contratar em Chaves  um advogado, com o objectivo de apresentar queixa contra os dois guardas-fiscais.  

 
Seguiu em direção à capela do Senhor dos Aflitos, onde rogou ao Senhor que o amparasse. De lá, evitando passar por Travancas e pelo quartel, foi para Chaves pelo caminho de São Cornélio e Curral de Vacas.


De nada lhe valeu a apresentação de queixa. De nada valeram os depoimentos das testemunhas. O tribunal, numa sentença iníqua, deu-o como culpado, obrigando-o ao pagamento de custas judiciais elevadas, para as quais teve de contrair empréstimo.



A casa do senhor Magno, tal como a dos vizinhos, está desabitada. É pena, uma casa típica  da nossa ruralidade, com valor histórico excepcional, não estar salvaguardada da ameaça de ruína. 


Não há familiares beneméritos que a ofereçam à aldeia, para nela ser instalado um Museu do Contrabando? Um cineasta poderia pegar no guião do "bárbaro assalto" dos recos, para fazer um excelente documentário sobre a Rota do Contrabando de Travancas! Com a preservação do património edificado, todos ganhariam: a freguesia e a família do senhor Magno.




sábado, 21 de novembro de 2015

Maré de soutos novos

Plantação de castanheiros, aos milhares 

A azáfama na plantação de soutos em Roriz, Argemil, São Cornélio e Travancas vai de vento em popa, e o bom tempo tem dado uma ajuda na plantação.


No planalto da Capital da Batata, a reconversão de campos de centeio e de batata em soutos, vem-se fazendo desde  há anos. O processo parece imparável!



Até à entrada de Portugal na CEE, agora União Europeia, as culturas do Planalto de Travancas, destinadas ao mercado, eram o centeio e a batata. A abertura à concorrência estrangeira  arrasou porém a produção local, deixando de ser rentável produzir batata e centeio.


Até onde irá a especialização na monocultura da castanha?  Não será demasiado arriscado ter o rendimento futuro dependente de um único produto?




E porque não diversificar e apostar também na cultura da avelã, um fruto seco, como a castanha?