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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A São não pára!

Ano após ano, repetem-se as imagens do fumeiro

Lareiros pendurados na cozinha, pejados de luzidios enchidos a secar, são uma tentação à gula.



Enchendo as tripas das alheiras artesanais. Apoio familiar é fundamental.



Todos juntos na produção de fumeiro caseiro, apreciado pela muito boa qualidade.


Palavras para quê? As imagens do fumeiro da São falam por si.



quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Matança do reco do Tó

Tradição das matanças em marcha

Apesar de ter sido avisado da matança, falhei o cuincar, momento em os recos, sentindo a faca do matador espetar-se-lhe no coração, soltam altos e doridos berros. Quando cheguei à matança do To Ribeiro já os dois bácoros estavam a ser chamuscados.




Chamuscar a pele dos recos com palha passou à história. Agora é sempre com maçarico a gás, muito mais eficiente. Enquanto um chamusca, apontando o maçarico à pele, um ou dois, enquanto está quente, raspam-na com navalhas. Nas unhas e orelhas, por serem rugosas, o trabalho é moroso.


Depois de chamuscada e raspada a pele, segue-se a lavagem exterior do animal.


Quando finalmente fica lavado, abre-se o reco, começando pela couracha. É dela que se fazem os rijões,  como se diz fora da terra. 



Nos últimos anos, o Carlos e o pai são quem tem matado os recos, normalmente dois, ao  Tó Ribeiro. O Carlos é  o matador doutras matanças também. Mas, em Travancas, Argemil e São Cornélio, como a população está cada vez mais envelhecida, não são todas as famílias que matam. Mesmo assim, e apesar da população continuar a diminuir, o Carlos ainda mata para cima de vinte.   



Os dois recos, depois de abertos e retiradas as entranhas, ficaram pendurados até ao dia seguinte, a apanhar frio, para a carne enrijar.  No interior da loja, as senhoras cortam carnes e preparam  miudezas.


Tudo se aproveita da carne do reco. Dela não se fazem só alheiras, chouriços, salpicões e presuntos. São um excelente manjar as ceboladas de iscas de fígado de porco!


Rijões fritos, acompanhados com batatas cozidas ou cortados com navalha num naco de pão, são um petisco que todo transmontano da gema bem conhece e aprecia.



Antigamente, por se  consumir ao longo do ano todo, dizia-se, com propriedade, que o reco era o goberno da casa!


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A matança do reco

                    Tradição que não morre 

Em dia de feriado, em honra da Imaculada Conceição, o senhor Eduardo não matou uma, nem duas, mas três grandes cevas.


Na matança dos porcos juntaram-se-lhe quatro vizinhos.

 Um deles, na transição para a adolescência foi assistente de matador.


Herdeiro de uma tradição que se perde no tempo, o matador, hoje, é ele!



A solidariedade nas relações de vizinhança da gente raiana, remontando a tempos que se perdem nas brumas do passado, ainda é o que era, um forte fator de coesão  social.



Assente na torna-jeira, a entre-ajuda, vinda do tempo em que a circulação de dinheiro era diminuta,  foi o sistema de organização do trabalho que as comunidades rurais criaram para sobreviver ao isolamento, à adversidade do relevo, do clima  e à escassez de recursos económico-naturais.



Às mulheres não está reservada a função de meras espectadoras  de um ritual em que o elemento masculino  é  o rei. 


No dia da matança as senhoras entram em ação, na coagulação do sangue;  na lavagem das tripas e na feitura da primeira refeição com carne da ceva. Dias depois, participam no desmanche do suíno e são elas a fazer o fumeiro, para goberno da casa ao longo do ano.



O ritual passa por quatro operações fundamentais: matar a marrã, chamuscá-la, lavá-la e abri.la, deixando-a a enrijar um dia ou dois, antes  do desmanche.


O feriado em honra da padroeira de Portugal, amanheceu com nevoeiro e  pluvioso. Às 8h30 o cuincar do primeiro reco ecoou pela aldeia. Seguiram-se os outros dois berrantes. Mas em Travancas há quem use pistola silenciadora.



Devido à chuva, os recos foram levados para  o interior do armazém, onde foram chamuscados e abertos.


A força necessária de vários homens para colocá-los no trator.



Antigamente chamuscava-se a pele do reco com palha de centeio ou carqueja.


Agora usa-se o maçarico a gás. Com ele torna-se mais fácil raspar a pele, com faca e sachola; limpar orelhas e arrancar as unhas.


A divisão do trabalho  - tarefas diferentes em simultâneo  - evidencia organização, fruto de experiência .



Lavagem e raspagem com pedra áspera.





Abrindo o reco, para retirar as miúdezas.


Da barriga fazem-se os rojões. Comidos à refeição, com grelos e batatas cozidas, ou com naco de pão, são sempre saborosos.







Tudo se aproveita para o fumeiro; até as tripas, depois de bem lavadas, para enchimento de alheiras, chouriças e salpicões.


Três horas depois, a matança dos recos chega ao fim. Dentro de dois dias faz-se o desmanche.


Satisfação, seguida  da festa da abundância, almoço no qual se comem os rojões e as primeiras carnes da marrã.  

Em conclusão, pelas terras da raia, a tradição ainda é quem mais ordena!


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O Go b erno da casa

Matança, a tradição ainda é o que era
 
Por altura da Santa Luzia, terceiro domingo do Advento, o senhor José Pinto matou mais três recos. O tempo das matanças,  no entanto, vai continuar por janeiro fora, até ao São Sebastião.


Criação de leitões para o próximo ano, já. Não são todos brancos; há cruzamento com porcos de raça bísara, menos gordos e mais ao gosto dos consumidores de hoje.
 
Carne gorda na salgadeira, em parte destinada aos folares.  Na época em que não havia congeladoras, a carne era conservada em sal  ou era fumada
Nos tempos de antanho, o reco era o sustento da casa, ao longo do ano. Guardava-se o fumeiro nos lareiros, na adega e nas arcas.












Em tempos de vacas magras, a fartura começava no dia em que se matava o reco, a petiscar rijões. Terminado o proceso de cura, iam-se comendo alheiras, buchos, chouriças de sangue, linguiças, salpicões  e o presunto, cortado em nacos de pão.




Bons tempos, aqueles?  Há quem diga que agora, sempre há mais variedade!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Tempo de Matanças' 12

Tempo de abastança

Hoje mataram-se mais cevas. Duas, o Modesto; uma, o Fernando. Esta semana também matam, o Albano, o Tó Ribeiro e outros cujos nomes me escapam.  
 

O tempo, com geadas noturnas e sol brilhante, durante o dia, vai de feição para a tradicional matança do reco, costume que fundamentalistas apelidam de bárbaro,  desconhecendo a sua importância económica e cultural, para a sobrevivência das comunidades rurais de Trás-os-Montes.
 
 

A ceva, com cerca de 150kg, resistiu à força de cinco homens, até o cuincar expirar.
 

Gustavo, da Cila, não acertou à primeira, mas conseguiu!
 

Já vai longe o tempo em que o reco era chamuscado com palha.
 
 
 
Terminada a época das colheitas  de outono - a castanha foi a última  - vem a matança, festa de abundância, em que amigos e vizinhos participam.
 

Antigamente, do porco tudo se aproveitava. Até o sangue - berde - era utilizado para as "papas", para cozer e para sangueiras.  Não foi o caso, hoje.
 

Animal pronto para ser pendurado e aberto, até enrijar, com o frio.



Geada, às 10h da manhã.
 

Reco do Modesto, de  "pata preta", pronto para desmanche, dentro de dois dias. Será o "goberno da casa" durante o ano!