De seis a vinte de Janeiro, cantavam-se os Reis em Travancas. Era uma tradição bonita que pouco a pouco se foi perdendo.
Dispostos p’ra lhos cantar;
Se os senhores nos dão licença,
Vamos-lhos a começar!”
Era assim. Depois da ceia, bem tarde, quando tudo se acomodava, juntava-se o grupo que saia para a noite. Com um barbeiro de meter medo, bem agasalhados, a luz baça do lampião indicando o caminho, lá iam com a alma em festa.
“Quem lhes vem cantar os Reis,
Da sorte que as noites estão,
Certo é que lhes quer bem,
Da raíz do coração.”

Com vozes afinadas, ferrinhos e concertina, devem-se as Boas Festas, acordando a quem a sono solto dormia,
“Boas Festas, Boas Festas,
Boas Festas vimos dar
Que nasceu o Deus Menino
Em Belém, p’ra nos salvar!”
Como não lembrar algumas vozes de alguns cantadores dos Reis: o Carlos e o Zé Roque, o Acúrcio, o João Caseiro, o Berto que tão bem fazia o “cima”, o “ti” Zé Manuel e o Chico Pinto. 
Que dizer daquela noite em que cantaram os Reis ao Ti Martinho e beberam aguardente por uma cafeteira…

Ou então, uma outra noite em que um grupo de estudantes quis fazer levantar da cama a D. Esperança e o Sr. Rodrigues que os receberam com biscoitos e vinho do Porto. Foi uma risota pegada durante a cantoria, porque a espera foi longa e tinha-se-lhes acabado o reportório.


Às vezes, os donos da casa tardavam a abrir. Então eram delicadamente pressionados:
“Se nos querem dar os Reis,
Não nos estejam a demorar,
Nós somos de muito longe,Temos jornada para andar!”
Outras vezes, mais raras, nem abriam. Então vinha o descante:
“Estes Reis que nós cantamos,
Tornamos a descantar;
Estes barbas de farelos,
Não têm nada p’ra nos dar!”
Mas quando abriam, os cantadores eram bem recebidos. Aqueciam-se, comiam, bebiam, recebiam os “Reis”:
“Daqui de onde estou bem vejo,
A faca estar a saltar,
Para cortar a chouriça,
Que os senhores nos querem dar!”
Depois, mais aconchegados, continuavam a cantar e por último, despediam-se:
“Despedida, despedida,
Como a deu a cereja ao ramo;
Fiquem com Deus, meus senhores,
Queira Deus que de hoje a um ano!”
Era assim… Cantavam-se os Reis em Travancas…
Texto de “Mariana”
Fotos de euroluso




































