Assim dá gosto!
Há dias, falando de fornos, o Toninho, empresário da construção civil de São Cornélio, disse-me que tinha feito obras de recuperação do forno do concelho em novembro de 2009. Levou-me lá de carro e abriu-me a porta. As obras de restauro feitas agradaram-me bastante. Além de manterem a estrutura primitiva, introduziram comodidades indispensáveis nos nossos dias, como água canalizada, energia elétrica e, imagine-se, luvas! O Toninho, orgulhoso da obra feita, como quem faz um filho, disse-me que tinha sido ele a escolher os mosaicos rústicos assentes no chão. Cá fora, na porta, a Junta afixou o custo da empreitada.
O velho forno do concelho, das grandes fornadas, do tempo em que as famílias eram grandes e muitas as bocas.
À noite, ou de madrugada, punha-se a vez, um qualquer guiço de giesta espetado numa das frestas da porta de madeira.
Quem primeiro cosesse, mais lenha gastava para o aquecer; estando de "pós-quente", bem menos se precisava.
O forno era de todos e a todos servia. Além de cozer o pão, lá se juntavam, à tarde, no tempo do frio, grupos de homens e rapazes, conversando, jogando às cartas. À noite, aí se recolhiam latoeiros, como o Zé dos carneiros, mendigos e ciganos necessitados de abrigo.
Hoje, excetuando o Lar Nosso Senhor dos Aflitos, poucos o utilizarão; muitos têm forno particular e há o café que funciona como centro de convívio.

Entrada do forno do povo em Junho de 2008...
... e depois de restaurada.
O Toninho disse-me que o forno de Argemil também vai ser recuperado - o que acho bem, pois o casco antigo da aldeia é muito valioso. Enveredando por este caminho, de valorização do património edificado comum, Travancas preserva a sua identidade e memória coletivas, reforçando nos naturais o sentimento de orgulho, a auto-estima e os laços identitários de pertença à comunidade.
Texto de Mariana, exceto a introdução e a conclusão.