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sábado, 17 de outubro de 2015

Ricardo, o 'maçom' de Roriz

E o enigma da cruz egípcia 

Um dos símbolos mais sagrados do Antigo Egito, a cruz ansata ou cruz Ankh, esculpido numa fonte de Roriz, remota aldeia de montanha, junto à raia, intrigou-me. 



Partindo do pressuposto de que não seria obra de trolha mas de mestre pedreiro, conhecedor de símbolos esotéricos egípcios, indaguei desde quando é que a cruz da vida estava na fonte. Quando soube que datava de 2005, portanto, sem  valor histórico como o albergue de peregrinos de Santiago, não fiquei desiludido.



Pelo contrário, quis conhecer o Ricardo, moço de Roriz, autor da cruz egípcia, feita no âmbito de um  exame de aplicação prática de competências, adquiridas num curso de desenho projetista.



"Gosto muito de mistérios antigos... a cruz simboliza a vida, as águas do Nilo..."



O Ricardo não saiu da aldeia; faz parte de uma associação que, embora  já tenha organizado um torneio de futebol, está parada. A falta de jovens é um dos  problemas que aponta para a inércia da associação. A solução, para a revitalizar, talvez passe por incluir jovens de outras aldeias  da União das Freguesias de Travancas e Roriz. Porque não?



Antiga escola primária onde traçou os primeiros desenhos. Dotado de sensibilidade artística, acredita que "a arte responde às nossas perguntas" e que "às vezes as grandes oportunidades aparecem disfarçadas atrás de tarefas árduas".
É assim o Ricardo, tão misterioso como a arte da Terra de Mênfis.



Na união das duas freguesias já tínhamos em Argemil um promissor pintor, o Luís; Agora, no "Ricardo, Coração de Leão" de Roriz, podemos ter um 'rei' arquiteto, mestre na arte de desbastar a pedra, usando o malho e o cinzel. 


"Para mim é gratificante ser reconhecido pelas pessoas da terra"
Quem lhe dá então a mão, para poder mostrar o seu valor  e, assim concretizar o louvável sonho  de ser mestre pedreiro, arquiteto de obras emblemáticas, como os templos de Salomão e de Luxor?  




sábado, 15 de março de 2014

Roriz no Caminho de Santiago

Antigo albergue de peregrinos em ruínas

Em Roriz existiu um albergue para os peregrinos de Santigao de Compostela que,  vindos, possivelmentre,  de Santa Valha, onde havia outro albergue, passavam por Lebução, Tronco, Cimo de Vila da Castanheira e por estas terras do Planalto de Travancas, em direção aos albergues de Vilardevós e Verim, na Galiza.




Nos dias de hoje encontra-se em ruínas. Os tijolos, na fachada do piso superior, indiciam que já houve tentativa de evitar a degradação do edifício, insuficiente, como se pode observar.



Aquando da sua edificação, contrastando com os casebres de colmo, da aldeia, terá tido cobertura de telha e paredes caiadas, a exemplo das ricas casas citadinas.



Quanto à sua propriedade, privada, não é de excluir que tenha sido património da Igreja até à extinção das ordens religiosas  no século XIX. Só que, tal como aconteceu  a muito do património confiscado pelo Estado, tal como propriedades agrícolas, conventos, obras de arte e outros bens materiais, com o decorrer dos tempos terá passado para mãos particulares.




Apesar do estado de abandono em que se encontra, o antigo albergue conserva na fachada alguns elementos decorativos que valorizam o histórico património.



Cruz e voluta dupla - ornato entalhado no granito em forma de espiral.



Bonito lintel - padieira de granito sobre a ombreira da porta - datado de 1782, em baixo relevo. A data de MDCCLXXXII, em algarismos romanos, deve ser a da construção do albergue, no reinado de Dona Maria I, a Viradeira, por seguir uma política de apoio à igreja, oposta à de seu pai, Dom José I, cujo primeiro-ministro, o Marquês de Pombal, se notabilizou pela perseguição aos jesuítas.



Ombreira e nicho dedicado às alminhas do Purgatório, encimado por uma cruz e voluta dupla. O pequeno altar, incrustado na frontaria do albergue, hoje considerado património artístico-religioso do mundo rural, noutros termpos era um elemento de culto aos mortos, onde se parava por um momento para deixar uma oração.

IRMÃOS
AJVDAÐ
NOS A SA
IR DESTAS
PENAS
Irmãos, ajudade-nos a sair destas penas
Inscrição em baixo-relevo, em pedra parcialmente soterrada, pelo empedramento da rua.



Fachada lateral do imóvel, no Beco da Lampaça, decorada com cornijas e gárgulas, além de cunhal e ombreiras em propianho. 



Porta de entrada, acessível por escaleira lateral, feita em cantaria e ladeada por duas colunas trabalhadas, uma das quais a ser substituída por um caibro.



Pormenor artístico, com baixo-relevo em caracol, ornamentação típica das escadarias monumentais de Casas Grandes e solares. De notar como as pedras de granito, cortadas e bujardadas, sem recurso a maquinaria, encaixam umas nas outras para dar forma ao corrimão.



 
É provável que todo o trabalho de ornamentação, nas duas fachadas e na escaleira, não tenha sido obra de simples pedreiro mas de mestre na arte de talhar e cinzelar a pedra dura.  





Além deste antigo albergue, Roriz. aldeia de montanha, tem um vasto e rico património de arquitetura e cultura tradicionais, algum, aliás, bem preservado e restaurado.



Tudo continuará a ir pelo melhor se cada um zelar pelo seu património e todos pelo que é do domínio comum!  Se a união faz a força, porque não seguir o lema "um por todos e todos por um"?



Não caberá à Câmara Municipal de Chaves,  fiel depositária do património municipal, a iniciativa de restaurar o velho albergue,  recorrendo, através de apresentação de projeto, a financiamentos da União Europeia, disponíveis para  ações de valorização do património cultural europeu?




E porque não transformar a antiga escola primária, ao lado, há anos abandonada, em anexo de um novo albergue de peregrinos, adaptando os dois edifícios às necessidades culturais do século XXI? Ganhariam eco-turistas, caminheiros, peregrinos de Santiago, município de Chaves e União de Freguesias de Travancas e Roriz!



Reconhecendo a importância da cultura no processo de unificação dos povos europeus, o Conselho da Êuropa instituiu  em 1987 o Programa Itinerários Culturais, com  o objetivo de conhecer, salvaguardar e valorizar o património cultural europeu, entendido como recurso importante para o desenvolvimento social, económico e cultural.  Os Caminhos de Santiago, pela sua importância na aproximação cultural dos povos europeus, foram a primeira rota a ser  oficialmente reconhecida.






Em   Portugal há itinerários identificados e  demarcados. Porém, no planalto que vai da Pedra Bulideira a Travancas,  apesar de existência do albergue de peregrinos em Roriz, e do santo ter o seu culto em localidades próximas - capela de Mairos e igreja de Tronco, onde é patrono - o estudo do itinerário jacobeu, nestas terras raianas, está por fazer, ser divulgado e oficialmente reconhecido.



No São Tiago vai à vinha e encontras bago! - diz o senhor Abílio Rodrigues, de Tronco, para justificar a existência do cacho de uvas na mão do padroeiro.



A desertificação demográfica das nossas aldeias é uma triste realidade. Não ficar à espera que poderes exteriores tragam soluções que contrariem o despovoamento do Planalto Ecológico de Travancas é o desafio que  me proponho abraçar. Assim, para tornar a União de Freguesias em polo de fixação e de atração de pessoas,  dou o meu contributo, batalhando, desde já, para colocar Roriz e  Travancas no mapa dos Caminhos de Santiago! Vamos, de mãos dadas, empenhar-nos  nesta causa, todos juntos!




quarta-feira, 10 de julho de 2013

Travancas Renova-se

Casas de cara nova

A aldeia despovoa-se  mas, habitantes e não residentes, apostados na fixação e no retorno à terra, constroem, reconstroem e restauram casas familiares, degradadas,  a maioria para habitação secundária.  Apesar dos tempos de crise, o movimento de renovação do património arquitetónico urbano tem sido constante nos últimos anos.
 
 

Obras na casa herdada pela dona Claudina, no início de maio de 2013

Atualmente, no bairro Além do Rigueiro, estão a fazer-se obras em duas casas que vão embelezá-las exteriormente e torná-las mais confortáveis. 




A top model, casa mais fotografada por mim
 
Constrói-se com mais qualidade e há uma tendência para o retorno ao uso do granito, material de construção tradicional.  Esta bonita imitação de pedra cortada, nas paredes da imponente maison, está a ser feita por galegos de Feces de Cima.
 
 
 
 
São várias as casas no povo onde os galegos têm estado a substituir a cal por massa  impermeável, mais eficaz no combate à humidade e cujo aspeto granítico, cinzento ou acastanhado, acentua a proximidade, estilizada, à ruralidade das casas tradicionais transmontanas, enriquecida, ela própria, com uma panóplia de estilos de diferentes origens.
 
 

 
 
 


Casa do Tó pintada e ornamentada de granito  A renovação, feita no ano anterior, combina harmoniosamente com a casa ao lado.  A Dona Joaquina, sua vizinha, também mandou há dias dar umas pinceladas na dela, tendo ficado mais branquinha. E assim vai Travancas, renovando e recuperando o seu património arquitetónico!
 

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Casa do Sargento Deitada Abaixo

E tudo o buldozer arrasou...


Eram sete rapazes...
...os filhos do sargento Edmundo, guarda-fiscal, casado com dona Marquinhas Maldonado. A pensar neles, construiu a casa, com pedra acarretada do Vale Grande, em carros puxados por juntas de bois.



Esteve muitos anos deslocado em Vilar de Perdizes, a mulher é que tratava dos filhos. O Honorato, guarda-fiscal como o pai, foi para o Porto. Outros emigraram para o Brasil e não voltaram. O único que ficou por Travancas, o Mundinho, apareceu morto num rego da água há uns anos.



A casa, na realidade eram duas, em propianho, situada ao lado da igreja, era das mais sólidas e bonitas casas de granito da aldeia. Habituado a ver a sua bela silhueta na colina, onde se destacava a grande e envidraçada varanda de ferro forjado, vou estranhar a perda deste valioso património edificado.



Desabitada desde a morte do Mundinho, sem reparação do telhado, degradou-se de tal modo que a sua morte há muito parecia anunciada. Posta à venda por vinte mil euros, pelo Sílvio, filho do Honorato, ninguém a comprou, acabando por ser vendida à Junta de Freguesia pelo preço simbólico de cinco mil euros, com o compromisso de no terreno se fazer um parque de estacionamento.



Os sinos não tocaram a rebate
Há edifícios particulares que pelo seus valores estético, histórico e monumentalidade, acabam por fazer parte do património da comunidade e serem por ela protegidos. Era o caso da casa do sargento Edmundo, onde havia espaço para se fazer um museu etnográfico da freguesia.



Escada dentro do pátio
Já depois de demolida parte da casa, alguns habitantes ainda se movimentaram no sentido de deixar de pé a sala da varanda e adaptar o amplo baixo a casa mortuária, ficando a que existe, para alargamento das instalações do Lar do Senhor dos Aflitos.




Banheira, um luxo!
Numa época em que as casas não tinham luz, casa de banho e água canalizada, na casa do sargento Edmundo tomava-se banho de imersão!



Janelas com vistas largas para o bairro d´Além do Rigueiro, colina  de Roriz e castelo de Monforte.



O princípio do fim
Às 16h do dia 23 de abril de 2010, começou a demolição da emblemática galeria envidraçada. As obras, no entanto, começaram dia dezanove, embora eu só me tenha apercebido delas no dia seguinte, quando já tinham sido derrubadas as paredes do topo oeste e do portão do pátio de acesso às escadas.



Chão da varanda em propianho
Contam-se pelos dedos da mão as casas que em Travancas têm estas típicas varandas de granito. Hoje não se fazem mais varandas destas.  Fica dispendioso e o granito é cortado  com maquinaria. Quem as tem, conserva-as e valoriza o património.


Último adeus
Saída da missa, dia 25 de abril.



Travancas perde propianho
O granito trabalhado, da casa do sargento Edmudo, foi parar algures, julgo que a Nantes, próspera aldeia do concelho de Chaves, a troco de algum dinheiro e da limpeza do terreno.



A história do granito ido para fora da aldeia faz-me lembrar outra semelhante de que tive conhecimento pela comunicação social há anos atrás. Na altura foi noticiado que os espanhóis andavam a comprar, na zona raiana, a pedra de xisto dos muros das propriedades.


A conclusão é a mesma: se não damos valor ao que possuímos, outros sabem dele tirar proveito.




Largo da Casa do Sargento Edmundo


Não conheço o Sílvio, neto do sargento Edmundo, mas louvo a sua atitude, de ceder a Travancas, por um preço simbólico, o casarão do seu avô paterno. Gostava de encontrá-lo!


Não sei se a Junta vai dar um nome ao largo do futuro parque de estacionamento mas acharia bem se se prestasse homenagem ao sargento da guarda-fiscal.


Para os que vivem  em Travancas seria uma forma de assumir o passado,  de o preservar e transmiti-lo com dignidade, às gerações vindouras.



Quanto a mim, uma vez que a casa, infelizmente, foi demolida, registo o seu triste fim e a saga, incompleta, da família proprietária, porque escassos são os dados que possuo.