sábado, 29 de novembro de 2008

Neva em Travancas

Il neige sur le village ...
It snows on my village ...
Nieva en mi pueblo ...

Depois de muitos dias de Sol e de geadas nas últimas noites, com temperaturas abaixo de zero ...






... Travancas começou a cobrir-se de neve na tarde de Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008.

Para quem, como eu, veio a Travancas para recolher na loja as abóboras, reparar o telhado, plantar castanheiros e, de caminho, levar umas castanhas da terra, o tempo ensolarado e sem chuva, havia corrido de feição.



O trabalho de plantação, exceptuando os bolbos de tulipas, estava a ser concluído na Sexta de manhã quando começaram a cair os primeiros farrapos de neve, misturados com chuva.












Ruas, campos e telhados de Travancas vestiram-se de branco pela primeira vez neste Outono.

















Com intervalos de pausa e alguma chuva, a neve continuou a cair, silenciosa, pela noite dentro.


Ao nascer do dia, Sábado, rejubilei de alegria. Da varanda, vi que a neve já tinha coberto a aldeia de um espesso manto de brancura como há muito não sucedia. A aldeia ficou isolada do exterior até os tractores começarem a romper caminhos.

sábado, 1 de novembro de 2008

Os Velhos Homens de Travancas

Los antiguos hombres de la aldea



Ano, atrás de ano, viram as estações sucederem-se mais ou menos rigorosas, marcadas por sementeiras e colheitas, por festas e funerais.






Hoje ainda lembram Invernos de neve grossa que deixava as crias nas lojas e os cristãos bem acomodados, ao redor das brasas, com boa pinga e um salpicão no borralho…




Nesses dias, só os mais afoitos se aventuravam pelos campos, rasos de brancura, para caçar algum caçapo descuidado ou passar algum taleigo para Arçádegos, Flor de Rei, Terroso ...




A vida era dura e áspera a terra. Não poucas vezes a batata e o centeio mal davam para cobrir as dívidas de todo o ano. O pão era escasso e muitas as bocas. Por isso partiram, para terras de França. A salto, a maioria.



Económicos e trabalhadores, voltavam no Verão, aparentando outras posses. Tijolo a tijolo, ergueram as casas sonhadas. Animaram feiras e arraiais, cumpriram promessas com sincera devoção.
 


Regressaram de vez, com o coração dividido, porque os filhos ficaram longe. Então, tornavam-se grandes as casas novas … Com o passar do tempo, a ausência e a morte foram-lhes cerrando as portas e as janelas ... Mas outras se abriram, levando conforto e carinho a quem foi ficando só.







Envelheceram. As pernas um tanto perras não lhes obedecem como dantes.


Por isso ficam sentados na tarde soalhenta, numa sueca animada. E há um, de lado, quebrando as regras, que faz suspender o jogo a destempo: “Vós lembrais-vos duma ocasião em que os guardas prenderam uns treleiros com uns sacos de café, na Ribeira?”




Lúcidos, desfiam memórias e cortam vasas com gestos convictos.














Fotos : Euroluso
Texto: Mariana




quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Merendeiras


As merendeiras são flores cor-de-rosa, rasteiras, perfumadas.
O nome desta flor do campo é um regionalismo que não aparece no Houaiss, o dicionário mais completo da Língua Portuguesa.
Embora já as tenha visto na aldeia, fui encontrá-las em grande quantidade num passeio à Cota de Mairos e ao Santiago, numa destas bonitas tardes ensolaradas de início de Outono.












A floração das merendeiras tem início em Maio, quando os dias são maiores e noutros tempos principiavam as merendas para quem trabalhava no campo.






Alegria na convalescença
-Tanta merendeira! Há quanto tempo não as via!










Flores …












“Quem em Maio não merenda, aos Finados se encomenda”, diz o povo.





A merendeira é uma espécie de açafrão-bravo cujo nome científico é Crocus serotinus.







Em Setembro, no final de Setembro, com os dias mais curtos e o fim das colheitas, acabam as merendas e as merendeiras.
Mesa merendeira na Cota de Mairos






Ai flores, ai flores de verde ramo, Se saberes novas de meu amado? Ai, Deus, e u é? Dom Dinis, Rei Trovador





terça-feira, 16 de setembro de 2008

Senhor dos Aflitos

Travancas, último domingo de Agosto de 2008




É tocante a simplicidade do culto do Senhor dos Aflitos - Senhor de todas as esperanças, Senhor de todas as lágrimas. Protector daqueles que partem, refúgio de quem cá fica…
Longe ou perto, quantas preces e promessas nas horas de aflição, quantas súplicas sentidas em tempos de desespero!









“Quando voltar, se tudo me correr bem, eu te prometo, Senhor, missa cantada e sermão e se puder, um andor …”

“Vai senhor, onde eu não alcanço ir e guia todos os meus e que nenhum se perca, Ámen.”



“Se ele se salvar, Senhor, porei flores no teu altar, em sinal de gratidão.”
Agosto. Cumprem-se os votos.
Reza-se
e dança-se,
numa alegria breve.
Para o ano, será igual

A banda a tocar
Os trajes domingueiros
O leilão do “Santo”
O cordeiro assado
Os vendedores ambulantes
A fruta da Terra Quente


Para o ano será igual. Que a fé dos homens não desfalece
e a bondade do “Santo” é infinita




Texto, Mariana; fotos, euroluso
Arraial