sábado, 18 de janeiro de 2014

Adeus Augustinho

Comoção na partida para a Eternidade


Augusto Santos, carinhosamente tratado por Gostinho, partiu para sempre, aos 47 anos, deixando dor e tristeza entre aqueles que o conheceram e amaram. Um mar de gente despediu-se dele, acompanhando-o até à última morada.




Foi neste lameiro, no Vale da Bouça, pelas 15 horas do dia 10 de janeiro de 2014, que tombou, ad aeternum, um dos homens mais novos da aldeia. O coração de Gostinho parou de pulsar quando andava, como sempre, atrás das vacas, sua grande riqueza. 
 
 
 
 
Um homem trabalhador e solidário.
Em público, era habitual vê-lo nas matanças, nas ceifas, no arranque das batatas, a tocar as vacas, a pisar as uvas no lagar e nos intervalos da labuta, no Café Central, à conversa com vizinhos e amigos.
 
 
 
 
 
De compleição robusta, faces rosadas e percetível boa disposição, Gostinho tinha aparência de homem que goza de saúde rija. O coração, no entanto, atraiçoou-o.
 
 
 
 
 
 
 
 

Descansa em paz, Gostinho.
 
 
 

À família enlutada: mãe, irmãos e sobrinhos, sentidas condolências pela perda do ente querido.
 
 
 
 


Se eu morrer antes de você, faça-me um favor:
Chore o quanto quiser, mas não brigue comigo.
Se não quiser chorar, não chore;
Se não conseguir chorar, não se preocupe;
Se tiver vontade de rir, ria;
Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão;
Se me elogiarem demais, corrija o exagero.
Se me criticarem demais, defenda-me;
Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam;
Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo...
 
Chico Xavier 
 
 
 
 
Com o término da caminhada terrestre, finda a alegria de encontrar mais cogumelos gigantes.
 
 
 
 
Fiel amigo, de sentinela à vacaria do dono, que não volta mais.
 
 
 

 Adeus, até à Eternidade




segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Aqui estão os reis à porta

Rei dos reis


Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, guiados por uma estrela, chegaran a Jerusalém  uns magos vindos do Oriente.




Sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino  com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. 
Evangelho segundo S. Mateus, 2, 1-12


Ouro, incenso e mirra eram presentes preciosos, dados a reis, sacerdotes e profetas. Na tradição bíblica, o ouro simboliza a realeza de Jesus, Rei dos judeus. O incenso, fumo purificador do templo,subindo ao céu, simboliza a espiritualidade do Mestre ou Rabi. E a mirra, resina usada desde o Egipto, nos embalsamentos, simboliza a imortalidade, a ressurreição depois da morte no Calvário.

Até meados do século XX, o costume de dar prendas aos meninos na época do Natal, tal como os reis magos deram a Jesus, salvo uma ou outra exceção, era inexistente nos meios rurais. A partir dessa altura, a emigração e os meios de comunicação de massa trouxeram hábitos de consumo urbanos, às aldeias.

Entretanto, o dia 6 de janeiro deixou de ser feriado religioso,  e a entrega das prendas, que até então se fazia no Dia de Reis, foi-se perdendo, passando, aos poucos, a ser feita no Natal.



Outras tradições natalícias que se têm vindo a enrraízar nas últimas décadas, são os costumes de enfeitar o pinheiro de Natal e fazer o presépio, tanto dentro da igreja e em lugares públicos, como na privacidaade dos lares. A origem do presépio é no entanto antiga. O primeiro apareceu em 1223, em Itália, feito por São Francisco de Assis.



 
Na cultura globalizada e descristianizada em que vivemos mergulhados, os presentes não são entregues às crianças por reis magos ou pelo Menino Jesus, mas pelo Pai Natal, "Père Noel" ou "Santa Claus", sucessores de São Nicolau, nascido na Turquia, Ásia Menor. Nesta cultura consumista já não são apenas as crianças a receber presentes.  Faz-se a troca generalizada de prendas entre adultos.

Longe vão os tempos em que se ia a pé, de Travancas a Arçádegos, no país vizinho, comprar muñecas e caramelos para dar às crianças no Dia de Reis.  O texto "Boas Festas, dão-me os Reis"  escrito por Mariana, é o testemunho de alguém que era criança, em meados do século XX.



 
Nesta época de janeiro, as tradições mais antigas dos meios rurais, com algum risco de se perderem  irreparavelmente, são os costumes de "Ganhar os Reis" e cantar as Janeiras ou "Cantar os Reis", como se diz em Trás-os-Montes.

 

Aqui estão os reis à porta
Dispostos para cantar
Se os senhores nos dão licença
Nós os vamos começar



Mas, com tanta falta de gente, ainda se cantam os reis em Travancas?
Que falta faz uma Associação Cultural que dinamize e recupere estas ricas tradições!
Argemil, Travancas, Roriz e São Cornélio, por todos, vamos a isso?





Boas Festas, dão-me os Reis?

Era assim...

...ganhavam-se,  davam-se e cantavam-se os Reis, a partir do dia 6 de janeiro, por terras do Alto Tâmega.
E havia sempre que dar. Tal como os Reis Magos presentearam o Menino, também às generosas gentes transmontanas não faltou nunca que deixar nas saquitas  humildes das crianças ganhadoras e cantadoras dos Reis -  castanhas, figos, nozes, chouriças...
Em terras raianas, tudo se confundia e misturava: a língua, as gentes, as tradições...
 
Como recordo com saudade aquele 25  de dezembro em que o Menino Jesus nos deixou a mim e à minha irmã um bilhete, dentro de um soquinho, com latinha amarela na biqueira!
Dizia mais ou mmenos isto: "Como a neve está muito alta, o Menino Jesus não pode viajar. Mas no dia de Reis vou a Arzádegos, levar os presentes aos meninos; passo por Travancas e deixo-vos os Reis."
Acreditámos piamente. Se a letra nem era igual à dos pais, não havia que duvidar!
No dia seis, lá estava a boneca de papelão, espanhola, claro, para a minha irmã, e uma caixa de galletas todas coloridas, para mim!

 Hoje, como então, apetece repetir:
"Boas Festas, darão-me os Reis?"


 Texto escrito por Mariana


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Natal com Neve

Que saudades, Deus meu!

- Como eram as nevadas na sua meninice,  senhora Palmira?
- Bô!!!
Lúcida, quase centenária, a mulher mais velha de Travancas, desfia memórias de uma vida inteira. Tem nos lábios o sorriso dos justos e, nos olhos guichos, a sabedoria da ancestralidade.



Mesmo sem a intensidade e a frequência das nevadas de antigamente, a neve volta todos os anos à montanha, cobrindo-a com um manto de brancura. Este ano, porém, tardou a chegar.



Como prenda enviada do céu, veio na véspera do nascimento de Jesus, quando as famílias se preparavam para a ceia de Consoada. Silenciosa, continuou a cair durante o dia de Natal, rejubilando corações e enchendo as gentes de orgulho, pela dádiva da Natureza à aldeia.




Recolhidos do frio, à lareira, peço à avó que me conte a história do pastor... da "Lã e a Neve". Em segredo, ouso pedir-lhe:
- Avó, põe as tuas mãos na minha fronte e dá-me a tua benção.
Sentindo a testa vitalizada por mãos ternas, calejadas do trabalho, caio nos braços de Morfeu.



segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Luzes do Natal

Saudações iluminadas

Depois de ter percorrido Travancas à noite, em meados do mês de dezembro, à procura de iluminações de Natal, fui até Argemil, São Cornélio e Roriz, com o mesmo objetivo.  

São raras as casas com decoração exterior  alusiva  às festas de fim de ano. Em São Cornélio não vi nenhuma. Em Roriz só encontrei uma residência enfeitada. Em Travancas e Argemil. as poucas casas com  iluminação  de Natal ficam à beira da estrada, onde a visibilidade por parte de terceiros é maior.



Coreto do Largo de São Bartolomeu e Café Central, este ano, com bonita iluminação, alusiva à quadra natalícia.


O Betinho decorando o interior do Café Central.


Casa em Travancas














Presépio do Lar do Senhor dos Aflitos. O presépio da igreja matriz ficou à espera de ser montado, para quando o marceneiro de Curral de Vacas  fizesse a nova cabana.




Argemil

Casa  tradicionalmente  iluminada na época do Natal.


Bairro das Poulinhas


Pinheiro no Bairro das Poulinhas



Roriz 

 
Em conclusão
A iluminação exterior das residências não é ainda um hábito enraizado nas aldeias do planalto.



Boas Festas aos amigos e visitantes do blogue.
Que 2014 seja um ano de paz no mundo  e que proporcione  bem-estar aos portugueses espalhados por todos os pontos cardeais da nossa casa global, o planeta Terra.




O Go b erno da casa

Matança, a tradição ainda é o que era
 
Por altura da Santa Luzia, terceiro domingo do Advento, o senhor José Pinto matou mais três recos. O tempo das matanças,  no entanto, vai continuar por janeiro fora, até ao São Sebastião.


Criação de leitões para o próximo ano, já. Não são todos brancos; há cruzamento com porcos de raça bísara, menos gordos e mais ao gosto dos consumidores de hoje.
 
Carne gorda na salgadeira, em parte destinada aos folares.  Na época em que não havia congeladoras, a carne era conservada em sal  ou era fumada
Nos tempos de antanho, o reco era o sustento da casa, ao longo do ano. Guardava-se o fumeiro nos lareiros, na adega e nas arcas.












Em tempos de vacas magras, a fartura começava no dia em que se matava o reco, a petiscar rijões. Terminado o proceso de cura, iam-se comendo alheiras, buchos, chouriças de sangue, linguiças, salpicões  e o presunto, cortado em nacos de pão.




Bons tempos, aqueles?  Há quem diga que agora, sempre há mais variedade!

Adeus lareira

Bem-vindo recuperador

Com a lareira da cozinha,  eu tínha o pote da água quente, o fole, o trasfogueiro e as tenazes com que mexia nas brasas, enebriado pelo fogo purificador. Sobre elas punha a grelha para grelhar a alheira e o assador de castanhas, pendurado à cremalheira, decorada com a candeia.












A lareira acabou há dias. Tinha a magia que falta ao recuperador. Às vezes adormecia ao pé dela, enquanto aquecia os pés, calçados com meias de lã de ovelha, feitas pela tia Marquinhas, e viajava feliz pelo universo da memória.

Nos últimos dias da lareira, envolvido pela nostalgia da perda, li O Alquimista, do escritor brasileiro, Paulo Coelho. Comprei-o num alfarrabista, na Capital du Vin Bordeaux, onde estive recentemente.   Tal como o alquimista procura transformar os metais em ouro, também eu devo descer à profundeza do meu Eu interior se quiser alcançar o elixir da vida ou Pedra Filosofal.


O recuperador quebrou o encantamento. A troco de mais calor e deixar de respirar fumo, fico afastado, sentado no escano, a olhar para  o lume, sem poder ouvir o crepitar das chamas por trás duma janela de vidro baço.

As tenazes, o pote, o fole e o trasfogueiro morreram, relegados para o canto dos objetos inúteis. É  um mundo que passa a pertencer ao passado, como o  chiar dos carros de bois que se ouviam nas ruas da aldeia.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Frio, frio, frio e sol

Muitas geadas, à falta de neve

Uma frente fria e seca trouxe geadas, atrás de geadas, em novembro e dezembro.


Sem poder cavar a terra, devido ao gelo, passei dias fechado em casa.


Até que numa radiante manhã de sol...


Saíndo ao encontro da vida, encontrei a dona Alzira  a cortar a gordura do reco para fazer unto...

... no tradicional pote de ferro.

Tinha matado no dia anterior e o desmanche seria no dia seguinte. 

No seu linhar, as couves, de tão brancas, pareciam cobertas de neve. 

Alguns telhados, apesar do sol lhes  bater ao raiar do dia, ainda  se conservavam brancos à hora da fotografia.




A mulher transmontana, como a mãe do Betinho, habituada ao trabalho, além da força física, tem a força moral dos clãs matriarcais.  Facilmente, ela e outras,  levantam sacos de 30kg de batatas e fazem frente ao mais empedernido dos homens.



Cabaças galegas.

No Vale da Bouça encontrei um dos vizinhos, com dois homens de Argemil, a cortar e a guardar lenha para o inverno de 2015.
Há que estar prevenido porque o frio é de rachar!